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sexta-feira, 21 de maio de 2010

A fé racional


"O conceito de Deus, e mesmo a convicção de sua existência, que só podem ser encontrados na razão, decorrem unicamente dela e não nos podem ser dados por inspiração nem por uma informação que fosse comunicada, mesmo pela maior autoridade. Se me ocorrer uma intuição imediata de tal espécia que a natureza, tanto quanto sou capaz de conhecê-la, não pode fornecer, tem de haver, no entando, um conceito de Deus para servir de fio condutor para que eu saiba se o fenômeno concorda também com tudo o que se exige como característica de uma divindade. Mesmo se absolutamente não compreendo como seria possível que um fenômeno qualquer represente, mesmo apenas quanto à qualidade, aquilo que se pode unicamente pensar mas não pode jamais ser intuído, pelo menos é bastante evidente que, apenas para julgar se é Deus o que me aparece e que atua interna ou externamente sobre minha sensibilidade, devo submetê-lo ao meu conceito racional de Deus e, em seguida, examinar não só se é adequado a ele, mas se não o contradiz.

À firmeza da fé pertence a consciência de sua invariabilidade. Assim, posso estar inteiramente certo de que ninugém me poderá refutar a proposição: Deus existe. Pois, de onde o adversário extrairia essa compreensão? Por conseguinte, não se dá com a fé racional o mesmo que com a crença histórica, a respeito da qual o surgimento de demonstrações em contrário é sempre possível, e devemos estar preparados para mudar de opinião sempre que se amplicar o nosso conhecimento do assunto." - Immanuel Kant

terça-feira, 18 de maio de 2010

Athena's Last Stand

"Quando lemos, outra pessoa pensa por nós: só repetimos seu processo mental. Trata-se de um caso semelhante ao do aluno que, ao aprender a escrever, traça com a pena as linhas que o professor fez com o lápis. Portanto, o trabalho de pensar nos é, em grande parte, negado quando lemos. Daí o alívio que sentimos quando passamos da ocupação com nossos próprios pensamentos à leitura. Durante a leitura nossa cabeça é apenas o campo de batalha de pensamentos alheios. Quando estes, finalmente, se retiram, que resta? Daí se segue que aquele que lê muito e quase o dia inteiro, e que nos intervalos se entretém com passatempos triviais, perde, paulatinamente, a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. Este, no entanto, é o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito ainda mais que um trabalho manual contínuo, já que neste ainda é possível estar absorto nos próprios pensamentos."¹





Volta e meia a vida nos conduz por caminhos tortuosos, trágicos, e outras vezes cômicos.
Sempre busquei com primor o desenvolvimento das faculdades humanas na leitura e no aprendizado através do conhecimento que por milhares de anos, os melhores homens que por essa Terra passaram deixaram como legado. Não me parecia razoável buscar em poucas dezenas de anos algo de muito grande, tendo ignorado séculos e mais séculos de vivências das mais variadas, passadas por mentes diferentemente constituídas e moldadas, estilos de vida diversos, e percepções tão amplas quanto o universo.

E sempre, nos momentos mais difíceis, quando caminhava na beirada do penhasco ou no reluzente fio da navalha, lá estavam os escritos, as reflexões... Pensamentos ditos por outras bocas, frutos da vivência de outras almas, ideologias e sabedorias apossadas, mas ao mesmo tempo tão minhas. Que traziam luz e amparo sem igual para o que me ocorria. Era como se as frases do Octavarium² se repetissem sempre em algum lugar recôndito da minha mente:

'Nós nos movemos em círculos
Balançamos o tempo todo
No reluzente fio da navalha

Uma esfera perfeita
Colidindo com nosso destino
A história acaba aonde começou'


É nesses momentos que inconscientemente formas, cores, rostos, lugares e situações diversas se desenham no quadro branco que outrora guiava meus passos. Quantas vezes eram as únicas palavras que me ocorriam. A necessidade delas causava temor e certa angústia. O estigma do desenvolvimento paralizado causa espécie a mentes ávidas por progresso, desenvolvimento, superação. A que mais seria atribuído por exemplo a constituição do Super-Homem proclamado por Zaratustra? Que outra matéria prima poderia ser responsável pela conjugação de corpo, alma e espírito, se não o desejo de crescer, aprender, melhorar, e seguidamente transmitir, ensinar e discipular?

O tempo é inimigo de todo grande homem, que tem áscuo pela inércia, pela escravização do corpo e dos sentidos pelo sistema que nos transforma em marionetes e nos mantém sempre entretidos, falantes, risonhos e esperançosos (pelo quê?). O tempo sim é algo implacável, impiedoso e único. O que me faz lembrar de sua importância nas lições do lendário Musashi³, que provavelmente soariam quase que como sarcasmo para o homem médio atual.

O homem médio, que na esfera jurídica é sinônimo de qualidade, elogio e idealismo; mas para o Super-Homem é nada mais que nada, que mais um. Homem médio soa como medíocre, que não faz diferença pro bem, apenas não faz para o mal. E nesse ponto talvez até mesmo um homem mal seria de maior utilidade à civilização, pois é através deles que o bom se destaca e é reconhecido. O médio moderno é ainda pior, pois a todo momento é colocado diante de oportunidades de alçar voo mas escolhe aprisionar-se voluntariamente; é o homem que entra em contato com preciosos tesouros mas lhe dá as costas, que conhece grandes mestres e ouve grandiosas lições mas as atira ao vento, ocupando-se de trivialidades e futilidades. É desse homem que deve-se ter pavor, pois é o que tem potencial para tornar-se grande, mas não o aproveita. O que dizer dos miseráveis par excellence? O Super-Homem tem pavor do homem médio e tudo que ele representa. Ele passa longe do mundano, do mediano, do irrelevante, e o sobrevoa com categoria e sem olhar para baixo.

Que o bom Deus nos livre do deserto, do disperdício e da possibilidade de que a preciosidade da vida, o alento do bem, da sabedoria e da plenitude nos agraciem e permita-me contemplar do mais alto monte, a prosperidade do equilíbrio que vem de dentro, e transborda por não ter mais para onde ir neste ser. Que o homem, que é a corda estendida entre o animal e o Super-Homem possa encontrar seu papel em si mesmo. Que o homem que hoje vos fala, aprenda a viver, como que se extinguindo, pois o maior valor que há no homem, é ser uma ponte para algo melhor, não um fim em si mesmo.




'Amo o que prodigaliza a sua alma, o
que não quer receber agradecimentos
nem restitui, porque dá sempre e não
quer se poupar.'
assim falava Zaratustra
















¹:Arthur Schopenhauer - Sobre livros e leitura: excerpt from Parerga e Paralipomena

²: Octavarium - Razor's Edge (Rudess, Jordan; Labrie, Kevin James; Portnoy, Michael; Petrucci, John; Myung, John)

³: As 21 lições do Mestre Musashi Miyamoto:

1. Eu nunca ajo contrário à moralidade tradicional.
2. Eu não sou parcial com nada e nem com ninguém.
3. Eu nunca tento arrebatar um momento de sossego.
4. Eu penso humildemente de mim e grandemente para o público.
5. Sou inteiramente livre de ganância em toda minha vida.
6. Eu nunca lamento o que já fiz.
7. Eu nunca invejo a boa sorte dos outros, mesmo estando com má sorte.
8. Eu nunca aflijo-me por qualquer um, qualquer coisa ou qualquer tempo.
9. Eu nunca censuro ninguém, ou me censuro para alguém.
10. Eu nunca sonho em apaixonar-me por uma mulher.
11. Gostar e não gostar de algo, é um sentimento que não tenho.
12. Qualquer que seja a minha moradia, eu não tenho nenhuma objeção à ela.
Samurai13. Eu nunca desejo um alimento saboroso.
14. Eu nunca tenho objetos antigos ou curiosos em meu poder.
15. Eu nunca faço purificação ou obstinência para proteger-me do mal.
16. Eu não tenho apreço por nenhum objeto, exceto espadas e outras armas.
17. Eu nunca daria minha vida por uma causa injusta.
18. Eu nunca desejo possuir bens que tornem minha velhice confortável.
19. Eu adoro deuses e budas, mas nunca penso em depender deles.
20. Eu prefiro me matar do que desonrar meu bom nome.
21. Nunca, nem por um momento sequer, meu coração e minha alma desviaram-se do caminho da espada.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A Desconstrução da Ilusão Masculina sobre a Mulher

A sensação de injustiça, certamente, é o que leva muitos rapazes a se frustrarem no que diz respeito à conquista, ou melhor, quando não há a conquista, pois, evidentemente, só há conquista quando a mulher deixa-se conquistar (o que me faz pensar se há, em verdade, conquista alguma).


A construção dessa frustração se dá a partir do ideário cultural sobre o que mulheres gostam – seja concernente ao homem, seja concernente a objetos, isto é, a questão referente à “materialidade” da coisa (presentes, por ex.) – e, por conseguinte o que as atrai.

Posto isso, cabe, agora, dizer como esse fenômeno se dá na cabeça do homem, aquele incapaz de notar o que se segue.

Desde a mais tenra idade, ele é condicionado a enxergar o sexo feminino para além – ou aquém – da realidade, quer dizer, sem considerar o fato de que uma mulher é tão humana quanto ele e, mais além, é tão animal – falando apenas biologicamente – quanto qualquer outro animal, isto é, conquanto ela seja excelsa por suas características femininas, sua feminilidade, ela jamais chegará ao nível ao qual o homem fora condicionado a acreditar que é: o de divindade.

Embora, pareça e seja evidente, é deveras árduo – julgo ser a maior parte dos casos – de ser assimilado por uma mente, muitas vezes, indolente, fruto de toda uma doutrinação diária – por meio de familiares, amigos, professores, veículos de “informação”, por ex. – em toda a vida.

Desse modo, por mais que se observe a contradição dos fatos com a teoria – o que se ouve dizer, em grande parte, advém das próprias mulheres – é a ainda incrível para o homem dotado de uma perspicácia tacanha, irrisória, até por que uma vez que a teoria advenha do próprio sexo feminino, possui um caráter, na cabeça desse mesmo homem, fidedigno – assim, ele é incapaz de se dar conta de que a opinião do vendedor sobre a roupa a qual este vende é tão sincera quanto uma ironia.

Assim sendo, o homem não vê razões para acreditar que o modus faciendi o qual foi – inclusive, agora, por si mesmo – condicionado a aderir, não seja, o que de fato é, um embuste e mais além um engodo.

Dessa maneira, agora, o homem possui a conduta a qual supõe – na verdade, tem certeza – ser aquela que o tornará impossível de se ser rejeitado, mas não somente pelos motivos acima citados como também pela fundamentação moral dada a essa mesma conduta – talvez ai resida, em suma, sua frustração. Continuemos.

Após, para o homem aqui tratado, não haver motivo para desacreditar a conduta e mais ainda, por questões de moral, ser reforçada, esse homem vai em busca de sua amada, aquele que o inspira os mais doces pensamentos e o titila as mais doces sensações. Eis, por fim, o cerne de nosso artigo, caro leitor, a frustração.

“Ora”, pergunta-se o homem, “como pude ser rejeitado? Não deixei sequer um pormenor escapar, ou deixei?”, este é outro detalhe: o homem ante seu insucesso cogita todas as possibilidades que possam ter o levado a tal, desconfia de si mesmo, mas nunca da verossimilhança do que aprendera e menos ainda da mulher, objeto de sua – vontade de – conquista. Contudo, ele persiste, porque não pode desistir de sua amada, de sua Afrodite. E, após um insucesso seguido do outro, ele passa a se estimular a permanecer atrás de sua musa, relembrando os romances que leu - talvez Werther –, mas é sempre insucesso. De qualquer sorte, tudo o que passará é perfeitamente, para ele, aceitável, pois ainda acredita que o erro reside em si mesmo.

Agora, vem a melhor parte – para quem gosta de ironia ou é apenas sádico – ou pior – para o protagonista dessa trama, o homem – que nada mais é se não a vez que sua amada passa a deleitar-se nos braços do cafajeste de personalidade biltre e rastejante jamais vista; representando, par excellence, a personificação da contradição entre teoria e fato mencionada anteriormente.

Dai, chegamos à questão da injustiça. Ela se dá pelo simples fato desse homem achar – desculpem-me a repetição – injusto agir conforme mulheres dizem se atrair e, mesmo assim, ser “trocado” (como se algum vez ele tivesse a mulher para si) por alguém que em nada corresponde ao que se ouviu dizer ser o “certo” a se fazer e ser (muitas vezes penso se homens assim não crêem em alguma espécie de “mão invisível” que coordene as relações interpessoais). Engana-se, afinal.

(Após tudo isso, há alguns caminhos que esse homem pode enveredar: 1º suicidar-se tal qual o jovem Werther [não consegue viver sem sua amada]; 2ºAssassina-a, pois “senão será sua não será de ninguém mais”; 3ºAssassina-a e suicida-se em seguida, pois ela não será sua em vida e menos ainda em morte [sem esquecer, é claro, de fatores legislativos de seu país para tal]; 4ºDeixa-a de lado, aceita a rejeição, embora discorde, e passa, agora, a ir atrás de outra [s] com o, ainda, mesmo comportamento e mantendo a cadeia de frustrações; 5º Reconhece a realidade, a incoerência do que ouvira dizer, e passa a agir como queira ou passa a imitar o comportamento daquele que outrora “roubou” sua amada.)

Em suma, engana-se, pois pensa ser seu fracasso na conquista uma injustiça, só que a conquista é um meio descaracterizado de legalidade (não possui leis fixas e definidas), não é um processo jurídico, portanto, impossível de ser julgado com base em preceitos fixos e previamente estabelecidos.







por Max Rodrigues

sábado, 15 de maio de 2010

Quantas Vezes?

Me diga quantas vezes você precisa ver a verdade para acreditar nela?
Quantas vezes é necessário percebê-la e senti-la
E a ver escorregar entre seus dedos como cera quente deixando marcas em escarlate
Quantas vezes precisa ter sua pele aberta para acostumar-se com a dor

Me diga quantas vezes o passado irá lhe assombrar até que seus fantasmas sejam dissipados
Quantas desertos precisa cruzar até que reconheça uma fonte de águas e não se confunda com um oásis
De quantas montanhas precisa desabar para que seu corpo se torne firme o suficiente
Quantas lágrimas precisam escorrer até que seus olhos se neguem a cedê-las por isso

Me diga de uma vez, quantas perguntas mais precisa fazer para que enfim encontre a verdade
Quantas mentiras entrarão em seu coração até que a reconheça apenas com um olhar
Quantas vezes mais irá cair até que aprenda a voar
E quantos voos dará até que entenda que o que procura se encontra aqui embaixo

Quantas milhas mais precisa correr até aprender a enxergar o que o cerca
E quantos mais vai deixar para trás até que entenda como tudo aconteceu
E quantas vezes mais irá levantar seus olhos contra o sol ardente
Até que entenda que a lua pode iluminá-los sem dor alguma

Quantas vidas precisa viver até que aprenda a amar verdadeiramente
Quantos amores precisa perder para aprender a viver
E quantos amores mais a vida precisará lhe negar?
Quantas vezes? ...



sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dignidade e Compaixão


A algum tempo postei aqui um texto cuja maior lição que se poderia tirar é que "cada atitude agressiva, é um pedido de ajuda".

O grande problema para compreender e reagir de acordo com isso é a forte natureza humana que nos leva instintivamente a combater o mal com o mal, concluindo que devemos lutar contra isso para que seja possível rebater uma ofensa com um gesto de amor.
Talvez essa seja a luta mais importante a ser travada em busca de uma harmonia plena.
Estudando um pouco mais sobre o mal, o pessimismo e a necessidade de desapego com expectativas, sobretudo a respeito das coisas que provém de outras pessoas, encontrei isto:


Quid superbit homo, cujus conceptio culpa,
Nasci poena, labor vita, necesse mori?
Por que há de se orgulhar o homem?
Sua concepção é uma culpa,
o nascimento, um castigo
a vida, uma labuta
a morte, uma necessidade!



"Por isto desejo (...) estabelecer a seguinte regra: com cada pessoa com quem tenhamos contato, não empreendamos uma valorização objetiva da mesma conforme valor e dignidade,não consideremos portanto a maldade de sua vontade, nem a limitação de seu entendimento, e a incorreção de seus conceitos (...) mas observemos somente seus sofrimentos, suas necessidades, seu medo, suas dores. Assim, sempre teremos com ela parentesco, simpatia, e, em lugar do ódio ou do desprezo, aquela compaixão que unicamente forma a agapé (amor), pregada pelo evengelho. " - Arthur Schopenhauer

O interessante nessa passagem é a propriedade, simplicidade e coerência com a qual o famoso "Filósofo do Pessimismo" trata esse tema que é tão controverso e incômodo e ao mesmo tempo sagrado e crucial.
Conseguir sintetizar atitudes positivas e amorosas, tendo ao mesmo tempo o desapego com qualquer tipo de retorno ou recompensa por parte do alvo dela, é um nível elevadíssimo de desconstrução de vaidades e amortização do ego. É sobre isto que tantas vezes escrevi e sobre o que trabalho com tanto afinco.
Que males porventura abalariam uma pessoa que busca praticar o bem, sendo psicologicamente imune ao mal que invariavelmente o assolaria? Que barreira ou obstáculo impediria um homem que busca o reino dos céus na Terra, caminhando ao lado do Criador, contudo tentando se livrar dia a dia de sua essência egoísta, que sufoca a divindade que há em nós, em busca de auto-realização, destaque e afagos emocionais?

O guerreiro que vence a si mesmo e neutraliza o foco do ataque inimigo é sem dúvida o mais preparado para vencer qualquer guerra.

Essa é sem dúvida alguma uma questão a se meditar seriamente, e ser colocada em prática o quanto antes.





[um doce pra quem identificar o merchan nessa foto :P]


'What shall we do to fill the empty spaces?
Where waves of hunger roar
Shall we set out across the sea of faces?
In search of more and more applause'

Formadores de Opinião



Todo cuidado é pouco ao ler um texto, absorver uma informação e permitir que sua opinião a qualquer respeito seja formada.
Já pararam pra pensar na terrível consequência de um efeito dominó no vício da formação da opinião pública? Em como o termo "opinião de massa" pode estar eivado de vícios sepulcrais?
É por ainda buscar esse filtro tão raro nos dias de hoje que conto com a brilhante explanação de Olavo de Carvalho sobre essa situação que macula a liberdade de expressão e opinião em todas as classes sociais atuais no Brasil e talvez no mundo.
Que pecado terrível é uma criança que não está na escola com as demais, que absurdo é o adolescente que não conclui o ensino médio e ingressa numa faculdade. Que abominação maior pode haver do que um adulto tentando se inserir no mercado de trabalho sem ter o diploma de um curso superior... Como pode ser chamado de homem um indivíduo que não age de acordo com todas as normas e convenções sociais impostas a ele, fiscalizadas pelos inflamados olhos de uma sociedade que ama o aparente mas tem aversão ao conhecimento e à profundidade?
Conceitos cedo formados e tardiamente questionados podem causar injustiças e muito sofrimento desnecessário... pobres dos que se importam.



"Nas próximas semanas, dedicarei uma série de artigos a analisar, com certa minúcia, algumas idéias do colunista da Folha, Contardo Calligaris, ou aquilo que ele imagina serem suas idéias, já que a mim me parecem mais reflexos condicionados. Antes de fazê-lo, porém, desejo esclarecer algo quanto à perspectiva desde a qual examino fenômenos como esse.

Um dos elementos básicos da educação é o aprendizado de comportamentos verbais que nos identifiquem com os grupos sociais cuja aprovação necessitamos. É todo um processo complexo e trabalhoso de mimetização de sentimentos, hábitos, cacoetes, preconceitos e manias que nos libertam do angustiante isolamento corporal a que nos condenou a natureza das coisas e nos dão a impressão de que somos “alguém”, pelo menos aos olhos dos outros, dos quais assim obtemos uma reconfortante confirmação da nossa existência e até, nos casos mais felizes, da nossa importância.

Completado esse treinamento, alguns indivíduos passam à etapa seguinte, que é a aquisição da alta cultura. Aí já não se trata mais de obter a aprovação dos nossos contemporâneos, mas de dialogar com os grandes homens de outros tempos e lugares, que não nos julgam pela nossa subserviência a um meio social determinado, e sim pela nossa fidelidade a valores e critérios que não são de nenhuma época, constituindo antes a condição da possibilidade de um salto entre as épocas. Esse aprendizado vai, fatalmente, na direção oposta à do anterior. Quando você já não busca a aprovação de qualquer meio social presente, mas de Aristóteles, de Dante, de Sto. Tomás, de Shakespeare e de Leibniz, você sabe que dela não resultará provavelmente nenhum benefício exterior, mas apenas a aquisição daquela consistência íntima, daquela sinceridade profunda que lhe permitirá ser de fato “alguém”, não aos olhos dos outros, mas da comunidade supratemporal do conhecimento, ainda que ao preço de tornar-se relativamente incompreensível aos contemporâneos. A partir desse momento você está habilitado a dizer como Dom Quijote: “Yo sé quien soy” – e a opinião dos circunstantes não pode afetar em nada aquilo que você apreendeu mediante vivência espiritual direta, solitária, sem mais testemunha ou interlocutor além da comunidade dos sábios mortos. Quando Sto. Tomás de Aquino recomendava “Tem sempre diante de ti o olhar dos mestres”, ele sabia o quanto a integração da alma no diálogo supratemporal pode custar em solidão de espírito, mas também sabia que essa solidão é o único terreno onde germina o desejo de conhecer a Deus (a não ser, é claro, que o próprio Deus decida falar com você por outros meios).

A sanidade de qualquer grupamento humano – um país, por exemplo – depende de que nele exista um número suficiente de pessoas dedicadas a este segundo aprendizado. É só por meio delas que a conversação contemporânea adquire um lugar e um sentido no quadro do universalmente humano, em vez de esfarelar-se numa infinidade de picuinhas que só parecem importantes na razão inversa da escala de tempo histórico em que são medidas.

Como a alta cultura desapareceu do Brasil, o uso da linguagem nos debates públicos limita-se hoje aos fins do primeiro aprendizado: as pessoas não falam ou escrevem para exprimir em palavras alguma experiência interior autêntica, mas para sentir que acertaram no tom e no estilo da platéia cuja aprovação anseiam para reforçar sua vacilante identidade pessoal com a chancela de um grupo de referência. Daí a necessidade constante, obsessiva, de ostentar bons sentimentos, entendidos como tais os sentimentos aprovados pelo grupo (e que podem, decerto, parecer desprezíveis ou abomináveis a outros grupos).

Como o grupo dominante na mídia e nas universidades, hoje em dia, é esquerdista e politicamente correto, o chamado “debate nacional” é apenas um torneio para decidir quem personifica melhor o amor sem fim às “minorias” oficialmente aprovadas como tais e o total desprezo pelas demais minorias, por exemplo os evangélicos ou os católicos tradicionalistas (os judeus são um caso espinhosamente ambíguo, obrigando as inteligências iluminadas aos contorcionismos verbais mais engenhosos para conciliar o respeito sacrossanto aos judeus mortos com o ódio visceral aos judeus vivos).

Quando, num desvario de independência pessoal, o sujeito se horroriza ante algum excesso do politicamente correto e escreve duas ou três palavras para criticá-lo, toma as mais extremas precauções para mostrar que só o faz no puro interesse dos próprios grupos visados, reintegrando portanto dialeticamente o momento de infidelidade aparente no fundo imutável da fidelidade essencial. Essas demonstrações de “divergência”, as mais extremas que o padrão nacional comporta hoje em dia, chegam até a ser aplaudidas como provas de originalidade, excelência intelectual e coragem quase suicida. O indivíduo capaz desses controladíssimos rompantes torna-se, no padrão geral vigente, a personificação mais próxima do que seria, em condições normais, o representante da alta cultura.

É isso o que, no Brasil de hoje, se chama de “formador de opinião”: um adolescente em busca de integração social, esforçando-se para imitar a linguagem e os modos de um grupo de referência, no máximo fingindo às vezes um pouco de discordância para poder ser aprovado, não como um membro qualquer entre outros, mas como um “intelectual”, talvez até como um “pensador”."

por Olavo de Carvalho

quinta-feira, 29 de abril de 2010

The Dark Side of the Humans



'O homem no fundo é um animal selvagem e terrível. Nós o conhecemos
unicamente no estado subjugado e domesticado, denominado civilização.
Porém, onde e quando a trava e a cadeia da ordem jurídica se rompem, o homem não deve crueldade e intransigência a nenhum tigre ou hiena.
À inveja, egoísmo de nossa natureza ainda se alia um estoque existente de ódio, ira, raiva e maldade reunidos, como o veneno no receptáculo do dente da cobra aguardando apenas a oportunidade para vir à tona; qual um demônio libertado a bramir sua fúria produzindo devastação."O ódio constitui de longe o prazer mais insistente; o homem ama às pressas, mas detestam longamente". (...) Gabineau, (...des races humaines), denominou o homem l'animal méchant par excellence (O animal perverso por excelência), o que desagrada as pessoas, porque se sentem atingidas; contudo ele tem razão, pois o homem é o único animal que incute dor a outro sem nenhum outro fim a não ser este mesmo. Nenhum animal maltrata apenas por maltratar , mas o homem sim, e isto constitui o caráter demoníaco, muito mais grave do que o simplesmente animal.'

'(...) é o querer-viver , que, amargurado mais e mais pelo contínuo sofrimento da existência, procura aliviar seu próprio padecimento causando o dos outros. (...) A pior feição da natureza humana permanece sendo o deleite pela desgraça alheia (...) estreitamente aparentada à crueldade (...) a satisfação na desgraça alheia é demoníaca e seu escárnio, o riso do inferno. '

É natural e mesmo inevitável que o homem, na contemplação do prazer e da propriedade alheios, sinta amargamente sua própria carência; apenas, isto não deveria erguer seu ódio contra o felizardo mas precisamente nisto consiste a inveja. (...) quando a inveja é produzida somente pela riqueza, posição social ou poder , freqüentemente é atenuada pelo egoísmo considerando que, do invejado, (...) se pode esperar ajuda, prazer , amparo, proteção, promoção etc., no contato com ele, iluminado pelo reflexo de sua distinção (...) Porém, a inveja orientada para as dádivas naturais e vantagens pessoais como é a beleza para as mulheres e o espírito para os homens, para esta inveja não há consolo ; nada mais lhe resta se não odiar os assim privilegiados. (...) da sua escuridão, o invejoso lançara sobre o invejado a censura, o escárnio, zombaria e calúnia, igual ao sapo que do interior de um buraco lança o seu veneno.' - Schopenhauer

Não há vício de que um homem pode ser culpado, nenhuma maldade, nenhuma baixeza, nenhuma indelicadeza que excita tanta indignação entre seus contemporâneos, amigos, vizinhos, como o sucesso. Este é o crime imperdoável, que a razão não pode defender nem a humildade mitigar. A genialidade é obrigada a pedir perdão.






Alguns acontecimentos recentes fizeram com que eu me perguntasse: Qual é a origem do mal?


"Perhaps you prefer a gentleman.
One of those fine-mannered and honorable gentlemen.

Thoso painting hypocrites who like your legs

but talk about yout garters."
mr. Hyde


Para alguns o mal está presente apenas em algumas pessoas, para outras, em nenhuma delas, atribuindo-lhe somente a espíritos, demônios e sensações momentâneas.
No contexto bíblico, fica claro que o mal nasceu do pecado do homem, exilando-o do jardim paradisíaco, para uma terra corrompida, com plantas espinhosas, venenosas, animais violentos, e longe da presença e a graça multiforme de Deus; necessitando assim de fazer algo para religá-lo com sua essência, que seria puramente boa (à imagem e semelhança de Deus).

Já Rousseau tinha a visão de que o homem é um ser iminentemente bom, é o meio que o corrompe. Argumento esse que por um bom tempo teve a minha simpatia. Vemos nos animais, a ausência da consciência, e por isso a ausência do mal gratuito, tendo-os observado agir com violência somente diante da necessidade de conseguir alimento, proteção de si e de seus filhotes ou bando, ou quando ameaçados. Um homem criado fora desse contexto predatório, competitivo e destrutivo que é a sociedade atual poderia reagir como um lobo, por exemplo? Hoje acho difícil.

Arthur Schopenhauer, no decorrer de suas obras, tecia impressões sobre o real caráter e essência dos seres humanos, criando pensamentos que acabaram por fundar a teoria do Pessimismo Filosófico, considerando a vida como um sofrimento contínuo, e as pessoas como seres maus, mesquinhos e egoístas, sendo os bons momentos apenas ilusões momentâneas, prazeres temporários e fugazes da dor, condicionando-os a futuras decepções. Dessa forma qualquer grande expectativa para a vida e boa projeção sobre quaisquer pessoas, sejam uma garantia de frustração iminente.

Creio que o mais razoável seria compreender a razão do contexto bíblico, da maldade natural somado com a influência social de Rousseau, e tendo consciência da eventual ocorrência do pensamento pessimista de Schopenhauer. Expectativas elevadas não são necessárias, a meu ver, para motivar atitudes e esforços no sentido da consecução de um fim específico, quanto mais se esse fim depender em qualquer instância, do envolvimento de outra pessoa.

Podemos observar o quanto a busca pelo aprimoramento pessoal está em destaque nos dias de hoje. A todo momento vemos por aí cursos de especialização, de cuidados-mil com o corpo, com a mente, com o currículo, com o futuro, com as finanças... Todos querem melhorar! Todos querem tentar explorar o máximo de si. Mas com que objetivo?

Penso que os fins não justificam os meios, e que uma boa ação consequente de uma má intenção não é boa. Mais do que nunca nos vemos diante de uma competição louca, desmedida e inquestionada pra sermos cada dia melhores, e cada vez mais rápido! Será que queremos ser melhores pra fazermos desse melhor, um todo melhor, ou serviria apenas para garantir nosso destaque e projeção para esmagar nossos "concorrentes", ou para fazer do todo um lugar melhor?

Os fundamentos de um Estado Democrático (onde teoricamente se situa o Brasil), segundo o primeiro artigo de nossa Constituição Federal, são:

I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.


Soberania do estado, dignidade da pessoa humana (Declaração Universal dos Direitos Humanos), valores do trabalho e da iniciativa (e não dos feriados e da preguiça), pluralismo político (que já virou a farofa que tá hoje), e a cidadania.

Cidadania que vai, ou pelo menos deveria ir, muito além de conhecimento e exercício de direitos políticos, de fazer greves ou reclamar do estrago que vem sendo feito em Brasília.
Cidadania pressupõe vida em coletividade, um grupo que luta pelo todo, não pelo individual; cidadania que traz a predominância do coletivo sobre o privado, do bem comum sobre a superação e aprimoramentos individuais.

Claro, não há nada de errado com sua aula de Ioga, seu curso de Húngaro ou a série de livros sobre auto-hipnose subliminar que você encomendou pela internet; eu falo de valores e objetivos finais na vida. Falo sobre saber o porque de tanto esforço, se vale a pena viver uma vida voltada pra si, pra aumentar a desigualdade porca que impera no nosso país, virando quase que uma característica cultural do país. Já imaginaram que lindoo slogan? BRASIL - O país do carnaval, do futebol e da desigualdade social... pay us a visit!

Eu fugi um pouco do ponto, na verdade eu queria falar sobre a maldade do ser humano e não do egoísmo e falta de consciência social do mesmo.

O fato é que cada dia mais eu me surpreendo em ver o prazer que algumas pessoas parecem ter em depreciar as outras. Parece introdução de assunto clichê de quem recebeu críticas e não gostou, ou foi alvo de fofoca (tendo dado motivo) e resolver dar o troco, mas não é.
Realmente me causa um certo medo, ver como as pessoas não relutam, não se medem na hora de rebaixar os outros, de contar aquilo que vai deixar uma pessoa (que não vai estar ali na hora) mal na frente de todos, como se deixando aquele indivíduo pior, você se tornasse melhor assim.
Típico princípio de se nivelar por baixo, de querer puxar o tapete do outro pra ficar mais alto que ele. É verdade que por causa das convenções da sociedade, da auto-preservação egoísta de querer ser visto como um querubim apesar de fazer essas capetices, muita da maldade inerente fica guardada na mente, ou presa na garganta, não é dita pois a ter a imagem impecável diante dos outros é mais importante ainda do que depreciar o outro pra ficar ainda melhor no conceito geral. Mas ai do primeiro que ousar abrir a porteira e dar a oportunidade... certamente palavras sairão sem a menor cerimônia emporcalhando o chão com seu conteúdo sujo e vil. E incrivelmente a sensação de tê-lo feito ainda soa bem aos paladares mais corrompidos que sequer diferem o azedo do doce, o amargo do salgado, em vista da espessa camada de lixo que por ali escorre diariamente.

"Se pomos freios na boca dos cavalos para que nos obedeçam, então conseguimos dirigir todo seu corpo. Vede também os navios, conduzidos por um pequenino leme para onde quer o impulso do timoneiro, embora sejam tão grandes e levados por ventos impetuosos. Assim também a língua é um pequeno membro do corpo, e se gaba de grandes coisas. Vede como um grande bosque é incendiado por um pequeno fogo." Tg 3: 3-5

Assim fica claro e cristalina qual é a natureza humana, para onde correrão seus corcéis se não forem domados e guiados com rédea curta, dia após dia.
Afinal as influências e aprendizados oferecidos de mãos abertas pelo sistema que suja a boca são como um banquete para que o lado negro das pessoas aflore, domine e massacre sem dó nem piedade. Quem dirá ressentimento ou peso na consciência; essas palavras sequer rodeiam a mente escura e sombria que produz discórdia sem pensar, maldade sem cessar e morte sem hesitar.

O pior acontece quando aquela matéria negra flutua suavemente até os ouvidos igualmente podres que se tornam ambiente agradável e serve de motor para que aquele petróleo se transforme novamente numa gasolina que em nada demoraria para explodir novamente diante do contato com a primeira faísca.

E com isso pode-se ver a sociedade por cima, uma nuvem negra, como uma praga, poluindo as fontes de águas vivas, contaminando as nascentes puras e distorcendo covardemente as mentes que lutam para que a essência maligna do ser humano não domine completamente seu ser.
A única forma que eu conheço de impedir um motor de produzir energia, é parando de alimentá-lo, ou mudando seu combustível para que seu funcionamento produza algo diferente.

A luta é difícil, constante e covarde, mas não estamos sozinhos nela. O maior segredo do vencedor é saber escolher o lado pelo que lutar, pois não há nada mais lastimável que vencer uma guerra para o mal.


"Porque os seus pés correm para o mal,
e eles se apressam a derramar sangue"
Pv. 1:16







“Ou o mal que tememos, existe ou o próprio temor é o mal.
Por que o divino, sendo onipotente, não poderia mudar,
transformar, para que não restasse mais a semente do mal”
Santo Agostinho














You lock the door
And throw away the key
There's someone in my head but it's not me.
And if the cloud bursts, thunder in your ear
You shout and no one seems to hear.
And if the band you're in starts playing different tunes
I'll see you on the dark side of the moon.



"I can't think of anything to say except...
I think it's marvellous! HaHaHa!"