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sábado, 18 de setembro de 2010

O pacato tem vida longa

'Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.' Mt. 11 - 29

'Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.' Mt.5 - 5




Para viver, deixe viver. As pessoas pacíficas não vivem apenas, reinam. Ouça e veja, mas mantenha-se calado. Um dia sem tensões significa uma noite repousante. Viver muito e com gosto é viver duplamente: é fruto da paz. Tem tudo aquele que não se preocupa com aquilo que não importa. Não há bobagem maior do que levar tudo muito à sério. Manter-se aberto àquilo que não interessa é tão tolo quanto não se envolver com aquilo que interessa.

Não se envolver em complicações.Eis uma das primordiais preocupações da prudência. É longo o caminho a percorrer de um extremo a outro, e os prudentes permanecem na área central da sensatez. É decisão amadurecida romper tal estado, pois é mais fácil tirar o corpo do perigo do que sair-se bem dele. As situações perigosas colocam nosso bom senso na berlinda, e é mais seguro evitá-las por completo. Uma complicação traz outra maior, conduzindo-nos à beira do desastre. Alguns são precipitados, por temperamento ou por nacionalidade, e é com rapidez que se envolvem em situações perigosas. Mas aquele que caminha à luz da razão avalia a situação e percebe que há mais valor em evitar o perigo do que em vencê-lo. Vendo que já existe um tolo imprudente, evita ser-lhe segundo.



Baltasar Gracián

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Céu e Inferno


“Um dia um aprendiz perguntou a seu mestre qual a diferença entre o céu e o inferno, e o mestre respondeu:

- Amado aprendiz, o inferno é como um grupo de pessoas sentadas ao redor de um monte de arroz delicioso, cada uma destas pessoas com talheres muito longo e por este motivo, estas pessoas não conseguem colocar o arroz na própria boca, por seu egoísmo (falta de compreensão!) morrem de fome.

- Já o céu, é um outro grupo de pessoas também sentadas ao redor de um monte de arroz, também com talheres muito longo, só que cada uma destas pessoas alimenta a outra, e por este motivo todos ficam satisfeitos e felizes.”


Eu sempre gostei de definições simples para questões complicadas; sobretudo em temas polêmicos e controversos como interpretações religiosas.

É verdade que não saberemos o real significado de dois lugares tão paradoxais e etéreos em vida, mas isso me fez questionar a possibilidade da existência de um céu e um inferno mesmo no mundo material.

Ora observando, ora participando, ora protagonizando episódios que se repetem como ciclos na vida de tantas pessoas, vejo como a mesma situação ou experiência pode ser encarada com conotações completamente diferentes por quem as vive direta ou indiretamente, abrindo espaço para a compreensão da noção a piori de céu, inferno e quem sabe até um purgatório físico/mental.

Sempre que somos colocados em situações de extrema carga emocional/sentimental somos levados a nossos extremos de conduta, de comportamento, permitindo que nossa consciência busque no âmago do nosso ser, forças, respostas, conformismo, ou mesmo um estado débil de contentamento (estado esse mais ligado ao purgatório físico). A diferença me parece estar ligada à forma como cada indivíduo encara essas experiências extremas, sendo fácil detectar as pessoas que optam por levar situações de forma mais realista, outras de forma mais emotiva, e outras de forma indiferente.

Cumpre frisar que dentro dessa análise não estou sequer analisando a possibilidade de absorção de conhecimento, bagagem de vida ou mesmo aplicação de situações traumáticas anteriores na resiliência dos fatos que servem de embasamento empírico para o que desenvolvo nesse argumento; trato aqui, apenas de uma escolha quase que instintiva de maneiras diversas de encarar as desventuras ou exacerbados sucessos a que estamos sujeitos ao longo de nossa jornada nesse imenso jardim do Éden, hoje com tantas e tantas árvores de frutos proibidos cada vez mais frondosas e apetitosas aos nossos olhos, que já se identificam com tais frutos não somente com a curiosidade da primeira mulher que o provou, mas com o temível conhecimento do bem e do mal, o tornando não somente a refeição principal do que nos afasta do paraíso, mas como uma doce e fatal sobremesa que chega ao estômago envolta em chamas furiosas.

É sempre mais convidativo à natureza acomodada e territorialista humana optar por levar tudo para o lado pessoal, principalmente quando estamos no pólo socialmente vitimizado da contenda, nos tornando convenientemente dignos de compaixão geral e opinião pública favorável, principalmente no contexto da sociedade brasileira, marcada por características mais cálidas, amistosas, abertas, para não dizer emocionais, frívolas e orgiásticas. O grande problema é que esse tipo de atitude, apesar de abrasadora para egos e consciências, é o que torna o homem para o lado do inferno em vida, trazendo para si perturbações e inquietudes infindáveis e sucessivas, ao contrário daqueles que aprenderam a adotar uma postura mais fria, madura e realista a despeito de eventualidades que possam atingi-lo pessoalmente (uma vez que é notoriamente fácil reagir com frieza, altivez e aparente maturidade diante de situações que não nos afetam interior, fisica ou financeiramente).

No meio do caminho estão aqueles que com sucesso amortizaram seus egos, vontades e desejos, ainda que não completamente, mas o suficiente para desfrutarem de um nível satisfatório de desapego, superação e indiferença quando colocados diante de medos, perdas e revezes, apenas sobrepondo-se a todo tipo de contrariedade, contudo sem se polarizar e transformar aquilo numa oportunidade, lição ou plataforma de transformação em algo positivo ou desejável. Geralmente essas pessoas são menos atormentadas em vida, porém possuem menos propensão para assimilar grandes alegrias e estados de prazer, uma vez que resignaram-se de tais sentimentos, bem como dos negativos outrora mencionados.

E por fim chegamos ao conhecimento dos querubins e serafins tácteis, aqueles que não só saíram do estado de penúria terrena, mas também impuseram silêncio aos desejos rasteiros humanos, vencendo a si mesmos, mas ainda foram capazes de fazer disso algo divino; que passa da água e do metal, surpassa o vinho e o ouro, atingindo um estado nobre de vida, como um processador de espinhos que fabrica pétalas perfumadas de rosas, que embora possuam espinhos para ensinar o preço de tudo na vida, inundam por onde passam com beleza, perfume e suavidade. São os esclarecidos de corpo, alma e espírito, que pouco valor dão a si mesmo, não se permitem identificar com a pequenez e o vazio terrenos, mas se encontram conscientemente num plano elevado de existência, como um corpo que vaga pelo mundo material, mas cujos olhos e espírito já estão no pós-morte, o paraíso.

Como tudo na vida, a escolha é particular, o caminho estreita-se à medida que subimos nossas pretensões. Mas como aquele que esvaziou-se de si voluntariamente sem carregar culpa alguma sempre estará sob o domínio das três áreas que parecem nos cercar antes mesmo da morte física. Que o sol brilhe fulgorosamente sob a face dos que para cima olham, enchendo suas vidas com o calor, a energia e a força necessárias para que alvas asas se abram por trás dos olhos dos que sonham e lutam.







"O que podemos saber é muito pouco e, se esquecemos o quanto nos é impossível saber, tornamo-nos insensíveis a muitas coisas sumamente importantes" Bertrand Russel

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Que Sobrou da Religião



'Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial durante o estado de morte clínica. Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos abertos. Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal, inclusive a do cérebro. A relutância em aceitar isso mostra que o “homem moderno” – o produto da cultura que herdamos do iluminismo – se identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí não se trata só de uma convicção, de uma idéia, mas de um transe auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.

Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a ameaça do escárnio e o temor – imaginário, mas nem por isso menos eficiente – da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera idéia filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela – é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante, encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo “cultural” e “científico” da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e variedade.

O “mundo real” no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse mundo são as “coisas físicas” e, em cima delas, o “pensamento humano”, as “criações culturais”. De um lado, a realidade dura da matéria regida por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade universal e inquestionável da “ciência”; de outro, a pasta mole e dúctil do “subjetivo”, do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo. Dessa esfera “subjetiva” faz parte a “religião”, que é o direito de crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais verdade objetiva ou valor universal.

Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma, regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando rompidas pela interferência do “milagre”, do “inexplicável”, do “divino”. Por mais que a filosofia esculhambe com o “Deus dos hiatos” (aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele é o único que restou no altar das multidões de crentes. Oficializada pelo establishment governamental, universitário e midiático, a rígida separação kantiana de “conhecimento” e “fé” tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas, embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e vice-versa.

Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não “está” no corpo mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si, não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor, um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o cérebro, isto é, o corpo, “cria” a cognição, o pensamento, a consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes) denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira, presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas vivências mais elevadas e sublimes.

Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra “eu”, referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor, voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como “cidadão”, amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da adequação social, adornado ou não de “moral religiosa”. Imaginem a diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o espírito.'


Olavo de Carvalho

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Maiores, menores e a preguiça de pensar




'A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam seus tutores. É tão cômodos ser menor! Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que decide por mim a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo.

Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros hão de se encarregar em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade considera difícil e também perigosa a passagem à maioridade, pois aqueles tutores de bom grado se encarregaram de supervisioná-la. Depois de terem em primeiro lugar embrutecido o seu gado doméstico e cuidadosamente preservado essas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar nem um só passo fora do caminho em que as encerraram, e tal seria para aprender a andar, mostram-lhes depois o risco que as ameaça se tentarem andar sozinhas.

Ora, na verdade não é tão grande esse perigo, já que por fim aprenderiam muito bem a andar, depois de algumas quedas. Basta um exemplo desse tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo, de um modo geral, em suas tentativas futuras. É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da sua minoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor por ela, por ora sendo de fato incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque jamais o permitiriam tentar assim proceder.

Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes do abuso de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem dele se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro, ainda que sobre o mais estreito fosso, pelo fato de não estar habituado a esse movimento livre. Por isso são bem poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender uma marcha segura.

Mas que um público de esclareça a si mesmo é perfeitamente possível; mais do que isso, se lhe for dada a liberdade, é quase inevitável. Pois sempre se hão de encontrar alguns indivíduos capazes de pensamento próprio, até entre os tutores estabelecidos da grande massa, que, após terem sacudido de si mesmos o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por conta própria. Notável nesse caso é que o público, que anteriormente foi por eles conduzido a esse jugo, obriga-os daí em diante a permanecer sob ele, quando é levado a se rebelar por alguns de seus tutores, eles próprio incapazes de qualquer esclarecimento.

Vê-se assim como é prejudicial plantar preconceitos, porque terminam por se vingar daqueles que foram seus autores ou os predecessores destes. Por isso, um público só muito morosamente pode chegar ao esclarecimento.

Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, mas jamais produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cinturões para conduzir a grande massa destituída de pensamento.' ¹


¹ - Resposta à pergunta: Que é "Esclarecimento"? ("Aukflarung")
(5 de dezembro de 1783, p. 516 - Berlinische Monatschrift)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Um Coração Forte


Todo conhecedor, estudioso, ou mesmo entusiasta das ciências humanas, e até mesmo das biológicas sabe, ainda que sem dar a isso muito destaque, que o ser humano funciona através da experimentação e adaptação. Entramos em contato com diversos tipos de informações, sentimentos e situações ao longo da vida, que moldam aos poucos nossa capacidade de lidar com cada um desses eventos. Somos seres adaptativos, que se moldam ao meio em que vivem e com o tempo se acostumam à mais íngreme diferença climática, cultural ou social.

É de interesse de todos viajar, conhecer novos países, culinárias, hábitos, línguas, pessoas, etc. Procuramos ler vários livros, revistas, ver todo tipo de filme pelo menos uma vez, experimentamos pratos diferentes, ainda que a contragosto; primando sempre por nos expandir. Sabemos que a quantidade e a diversidade de informação acrescentam valor ao que somos, nos tornando mais cultos, compreensivos, sábios e inteligentes... Sem dúvida a experiência é uma das formas mais eficientes (mas não mais fáceis) de adquirir conhecimento, e todos sabemos disso.

Eu me pergunto, no entando, por que somos incrivelmente reticentes a essa ideia quando a experiência, pode nos causar qualquer tipo de dor ou sofrimento.
Pessoas decidem sem pestanejar viajar pelo mundo, ou provar alimentos exóticos, conversar com desconhecidos, mas dão tudo o que tem para fugir de qualquer situação conflituosa, ou com potencial de trazer qualquer tipo de dificuldade ou esforço exacerbado.

Mas é inegável que quando passamos por isso, após breve reflexão, fica claro que aquele tipo de situação foi a que mais contribuiu pro nosso crescimento e fortalecimento, nos dando consequentemente, mais condição de criar um ambiente desejável ao nosso redor, ou de com maior destreza evitar uma possível recorrência desse male, seja num futuro próximo ou distante.

Assim como nossos músculos, nossos sentimentos só se fortalecem ao serem esticados e relaxados por diversas vezes. Não, não faço aqui uma apologia à dor, pelo contrário. Que ela seja exceção na nossa vida, mas que como a alegria, seja encarada como algo natural, que independente de desejada ou não, acontece, mas quando vai embora, pode deixar algo mais que uma passageira sensação de prazer ou satisfação.

A vida se torna imensuravelmente deplorável quando se resume à busca de sensações agradáveis e ao distanciamento de qualquer desafio, dificuldade ou sofrimento.
É pela repetição que uma situação primordialmente apocalíptica pode se tornar uma pequena pedra no sapato de um homem, que sequer se incomoda ao chutá-la para fora de seu caminho; conferindo-lhe o luxo de apenas passar adiante dos demais que se deitaram pela estrada, exauridos pelo menor espinho cravadona planta de seus pés.

Já que aprendemos a enfrentar a tudo e a todos como traço característico-social-contemporâneo, que tal aproveitar a viagem para fazer o mesmo com o indesejado e o infortúnio?
Um coração forte é aquele que foi desmantelado e reconstruído várias vezes, que escapa de cravos e lanças como um guerreiro experiente e corajoso.
E sem dúvida a vitória em uma batalha como essa trará mais honra, excelência e força para os que ousaram combatê-la.

Me orgulho das guerras que travei, não somente das que venci.
Pois para caminhar sobre a ponte do primeiro grande castelo conquistado, foi necessário levantar e caminhar sobre os escombros de vários próprios que foram destruídos.

Que venham outras grandes batalhas; guerreiro algum irá correr do local onde Deus um dia o consagrou.





'Não se aprende uma lição que não venha acompanhada da dor.
Já que não se pode construir nada sem um sacrifício.

Mas quando se aguenta essa dor e a supera,
as pessoas conseguem um coração forte que não perde para nada...



...sim, um coração como o aço.'



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Back to Green




"devemos correr contra as forças da escuridão... todo o mal do mundo, todo o ódio."



Nessas férias tive oportunidade de conviver e refletir sobre extremos. Mas o próprio conceito de extremos já é extremamente delicado, quando tomado por um ser que nasceu, foi criado e teve toda sua existência formada quase que exclusivamente por selvas de concreto, mediações digitais, informações intensamente tendenciosas e valores fortemente transformados.

A verdade é que as duas cenas antagônicas descritas nas imagens refletem o tipo de divergência que experimentei.

De um lado temos o homem escravizado, domado, influenciado e rendido a um estilo de vida, a uma ditadura da informação. Um meio que faz com que ele se perca entre dados, números, notícias, boatos e meias-verdades. É o típico homem infestado pelo vírus da sociedade e do estilo de vida formatado, padrão. Cujo único objetivo é correr atrás de metas e sonhos colocados em sua mente sabe-se lá por quem. Enfim, uma vida repleta de desejos, que são sempre colocados acima das necessidades. Esse homem, portanto, se torna escravo de seu próprio ego, de suas próprias emoções, construindo para si ideais aparentemente genuínos, mas basta uma olhada superficial para o lado, para ver uma multidão de zumbis que sonham e anelam com todas as forças exatamente pelas mesmas coisas. Algo realmente intrigante, quando consideramos ter vindo do ser mais desenvolvido, racional, divergente e contraditório da natureza. Esse é o homem que escravizou a si mesmo, com grilhões que alcançam até mesmo quem os criou.

Por outro lado, conheci a incrível história de Christopher Johnson McCandless. Um jovem norte-americano que resolveu abandonar todo o conforto, diploma, dinheiro e 'sonhos' que tinha na vida para se aproximar um pouco mais de sua essência, se aventurando numa caminhada rumo ao desconhecido, apenas com o rumo de chegar ao Alasca. A história dele acabou dando origem a um livro lançado em 1996, com o título orignal de Into the Wild, por Jon Krakauer, adaptado para os cinemas em 2007 sob a direção de Sean Penn, com o título em português de "Na Natureza Selvagem".

“(…) SEM JAMAIS TER DE VOLTAR A SER ENVENENADO PELA CIVILIZAÇÃO, FOGE E CAMINHA SOZINHO PELA TERRA PARA SE PERDER NA FLORESTA”


Inspirado por escritores como Jack London, Hendy David Thoreau e Leo Tolstoy, esse jovem criou uma certa aversão à sociedade e todo o sistema que havia sido criado e se enraizado profundamente nas pessoas, que não mais pensavam, jamais o questionavam, apenas viviam. Me identifiquei grandemente com a atitude e os pensamentos de Christopher, principalmente na parte de não questionamento de algumas verdades absolutas. Conversando com uma amiga ultimamente fui questionado sobre que coisas eu ensinaria para os meus filhos...
Como muitos sabem sou cristão, frequento uma igreja evangélica, mas não sigo tanto o padrão psicológico da maioria das pessoas que conheço ou convivo. Tenho curiosidade e dificuldade de engolir padrões, principalmente comportamentais, sem alguma explicação, ou razão; ou seja, sou o tipo de pessoa que busca entender o porque de alguma coisa antes de segui-la ou adotar como verdade pra minha vida.
Então o que eu respondi a essa minha amiga foi que eu ensinaria apenas duas coisas a meus filhos: a primeira são os caminhos de Deus; Seus princípios, mandamentos éticos, morais e explicarei paulatinamente a razão de tudo aquilo; o porque de agir assim e assado e não apenas: faça isso porque é o certo, ou porque Deus mandou, ou porque Ele vai te castigar se vc não obedecer.
A segunda é intimamente ligada a essa primeira, que é justamente aprender a pensar e questionar as coisas; sobretudo eles, que viverão numa era altamente intoxicada pelo espetáculo, pelo estilo de vida massificado, por padrões muito restritos de conduta e 'normalidade'.
Sou do partido de que devemos tratar uma pessoa desde sempre como se ela já fosse aquilo que desejamos que ela se torne. Logo, se quero que meus filhos, ou qualquer outra pessoa se torne um ser pensante, inteligente, capaz de compreender e modificar o meio em que vive, eu me recuso a colocar verdades inexplicadas na cabeça deles, uma vez que da mesma forma que eu coloquei dogmas incontestáveis na cabeça deles, voltados pro que EU acredito ser certo, outras pessoas, situações ou experiências podem fazer o mesmo, e claro, nem sempre pendendo para coisas desejáveis (sobretudo nos dias de hoje).

Enfim, o que mais me impressionou na longa jornada desse garoto foi como a simplicidade, a naturalidade e a paz que ele tinha dentro de si, eram facilmente absorvidas por outras pessoas, que já possuiam de certa forma, uma maturidade comportamental e espiritual pra isso.
Digo, alguém que estava num caminho como o dele, limpando de si doses hemeopáticas de veneno social e mental, quando caminha pelas ruas de uma grande metrópole, vai ser visto como um desajustado, um coitado, um perdedor, nessa vida onde vencer é ter sucesso social, financeiro, poder, profundamente imerso nos conceitos da tão glamourosa high-life (objetivo máximo de vida para a esmagadora maioria dos jovens atuais); mas quando encontrava pessoas simples, desapegadas, com o conteúdo lapidado interiormente e não externamente, Christopher parecia trazer à tona o melhor de cada pessoa, se tornando alguém quase que insubstituível para a compreensão de certas coisas. Sendo que o único dom ou talento sendo demonstrado por aquele jovem era a simplicidade, a naturalidade, a essência do homem, a longo tempo abandonada.

Quantas vezes por semana, mês ou ano que nos permitimos pisar descalços numa grama úmida após uma noite de sereno até sentir a terra revirar sob nossos pés, ou encher com vontade nossos pulmões com a primeira brisa da manhã? Quantos aqui tiram que seja, segundos de seu precioso tempo, para contemplar a infinitude das estrelas que nos observam silenciosamente no vazio da noite? Ou mesmo nos colocarmos embaixo de uma cachoeira, e sentir aquela água gelada, pura e cristalina lavando toda nossa carga de stress, inquietação e urbanismo?

São coisas assim de que precisamos, voltar um pouco para a essência, ter o mínimo contato que seja com a vida natural, nos afastando dos animais violentos e egoístas que temos nos tornado, e paradoxalmente ou não, buscar mais contato com a nossa natureza selvagem!








“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor.
Adeus e que Deus vos abençoe a todos”.

Christopher McCandless

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Lamento do velho Benjamin




e assim continuava pelo caminho aquele homem surrado, deprimido, malfalado, que inacreditavelmente ainda exprimia um sincero sorriso em seus lábios. essa é aquela estrada de solo tão virgem, onde tão poucos homens haviam trilhado,
a estrada daqueles que amam o conhecimento (logos), daqueles que amam (philos) a sabedoria (sophia)!





Já não cabe mais a qualquer formador de opinião bater na tecla da contemporaneidade utilitarista. É de sapiência de todos como as coisas hoje só adquirem sentido ou possuem valor agregado numa proporção direta à utilidade, proveito e realização que elas trazem para o receptor do que seja; uma informação, uma atitude, um pensamento, enfim...
Somos avaliados não por nossos pensamentos, nossos esforços, nossa dedicação, lealdade ou pelos fins que buscamos com qualquer ação, mas unicamente pelo efeito interpretado por cada cabeça diante daquela atitude.
Em termos práticos e atuais poderia citar aqui a eliminação do Brasil e a crucificação de Dunga, que notadamente procurou fazer um trabalho sério, coerente, diferenciado e exemplar. Mas isso de nada tem valor se o resultado não veio; sendo de fácil assunção o fato de que um técnico incompetente, desregrado e máu caráter seria coroado e ovacionado por todo o país caso conseguisse resultados mais eficazes que o primeiro.

Essa tendência é consequência direta da mentalidade atual de uso e descarte tanto de pessoas, como de coisas, situações ou pensamentos. Não importam os meios, desde que o fim seja aquele que eu desejo. Desejo que difere-se completamente de necessidade. Criamos metas, alimentamos sentimentos cegamente, e também cegamente agimos diante das atitudes, escolhas e meios escolhidos pela outra pessoa. O que ou como ela vinha agindo perde totalmente o crédito, desde que meu desejo, meta ou sonho não venha a ser atingido.

Traço esse, proveniente de incrível infantilização social e psicológica, fruto de uma sociedade que gera cada vez mais, crias treinadas para superar, rebaixar e desprezar quem se coloca na frente de suas ambições, emoções ou desejos insólitos. É aí que a razão, que já vinha sendo relegada a raros momentos de lucidez, é completamente extirpada de qualquer juízo de valor que se possa buscar. Uma cultura recheada de anseios, emoções, que naturalmente passará a dar lugar à ódio, rancor, ressentimento, com síndrome global de perfídia.

O que pode fazer então aquele que buscava honestamente cumprir com suas obrigações por si mesmo, e para si mesmo, baseado em sua moral geral, ética universal e outros princípios duramente lapidados por experiências das mais sórdidas?

Qualquer ser dotado do mínimo senso de justiça poderia citar inúmeras respostas para isso, mas a verdade, é que aquele que possui os atributos citados no parágrafo acima, nada mais pode fazer a não ser lamentar por esse infeliz e ingrato sentimento gerado por inegáveis males da caixa de Pandora e recluir-se, uma vez que o silêncio muitas vezes é a resposta mais efusiva e sincera de um homem que se conhece, confia em Deus e seus desígnios. Ao mesmo tempo, desejando que todos aqueles que dessa forma procederam tenham a infinita sorte ou divina luz, de com essas situações aprender, crescer, fortalecer-se, desejar o bem e jamais o mal, buscar consolo, entendimento e sabedoria, e não vingança e autodestruição (fim inegável de qualquer que busque o mal contra si ou seu semelhante)... como aquele homem certamente já havia feito tantas e tantas vezes em sua vida, ou do contrário, não teria qualquer condição de estar aqui lhes escrevendo isto.








'with great power comes great responsability'