terça-feira, 21 de setembro de 2010
Tyler Durden's Excerpts
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
O inferno brasileiro
Fala-se de um momento histórico em que conceitos diametralmente opostos como esses se confundem de maneira homogênea na mente de uma sociedade perdida, confusa, mergulhada em profundezas sem sequer perceber, nadando em texturas que sequer podem discernir. Os pólos que por séculos nortearam o bom-senso geral se encontram num choque mais cataclísmico que o de placas tectônicas; princípios basilares são violentamente consumidos pelo buraco negro da relativização. E nesse terremoto muito mais do que vidas estão sendo dizimadas, mas a própria essência do ser, a primazia da construção interior humana vem sendo varrida impiedosamente enquanto os mais bravos observam o que ainda resta de valor escorregar rapidamente por seus dedos; e ainda faltam condições para que as mãos se fechem e se juntem a rostos iluminados parcialmente por um, quem sabe, último lampejo de consciência criadora.
'A toda hora aparecem pastores, padres, sobretudo jornalistas e políticos – sim, jornalistas e políticos, essas personificações supremas da moralidade – clamando contra “a degradação dos costumes”. O próprio termo completamente deslocado que empregam para nomear o mal prova que são parte dele. “Degradação dos costumes” é uma expressão quantitativa, escalar: supõe a vigência permanente de uma escala contra a qual se mede o decréscimo da obediência rotineira aos valores que ela quantifica.
O que se passa no Brasil não é uma “degradação dos costumes”: é a destruição premeditada de todas as escalas, a inversão sistemática de todos os valores.
Os costumes degradam-se quando a população já não consegue imitar nem de longe os modelos melhores de conduta que a História consagrou e que, ante o olhar de cada geração, se reencarnam de novo e de novo nas figuras das personalidades admiráveis, dos sábios, dos heróis e dos santos.
Quando, ao contrário, todas as personalidades admiráveis desapareceram ou foram postas para escanteio, e em seu lugar se colocam simulacros grotescos ou inversões caricaturais, o problema já não é a desobediência, mesmo generalizada, a valores que todos continuam reconhecendo da boca para fora; é, ao contrário, a obediência a modelos de malícia, perversidade e covardia que se impuseram, pela força da propaganda e da mentira, como as únicas encarnações possíveis do meritório e do admirável.
Quanto mais alto esses personagens sobem na hierarquia social, mais esfumada e distante vai ficando, até desaparecer por completo, a escala de valores que permitiria julgá-los e condená-los; e mais e mais eles próprios se consagram como unidades de medida de uma nova escala, monstruosamente invertida, que em breve passa a ser a única. Daí por diante, quem quer que não a siga e cultue dificilmente poderá evitar a sensação de marginalidade e isolamento que é, nesse quadro, o sucedâneo perfeito do sentimento de culpa. Calou-se, na alma de cada cidadão, a voz da consciência que, na escura solidão da sua alma, lhe trazia a lembrança amarga de seus delitos e de seus vícios. Em lugar dela, desenvolve-se uma hipersensibilidade epidérmica à opinião dos outros, ao julgamento do grupo, ao senso das conveniências aparentes.
Preso na trama virtual dos olhares de suspeita, cada um vive agora em estado de sobressalto permanente, obsediado, ao mesmo tempo, pela compulsão de exibir equilíbrio, tranqüilidade e polidez para não se tornar o próximo alvo de desprezo. A essa altura, cada um se dispõe a renegar ideais, amizades, lealdades, admirações, promessas, ao primeiro sinal de que podem condená-lo a um ostracismo psíquico que se anuncia tanto mais insuportável quanto mais tácito, implícito e não reconhecido como tal.
Há uma diferença enorme entre um “estado de medo” e uma “atmosfera de medo”. O primeiro é patente, é público, todos falam dele e, não raro, encontram um meio de enfrentá-lo. A segunda é difusa, nebulosa, esquiva, e alimenta-se da sua própria negação, na medida em que acusar sua presença é, já, candidatar-se à rejeição, à perda dos laços sociais, ao isolamento enlouquecedor.
Nessa atmosfera, a única maneira de evitar o castigo ante cuja iminência se treme de pavor é negar que ele exista, e, com um sorriso postiço de serenidade olímpica, ajudar a comunidade a aplicá-lo a imprudentes terceiros que tenham ousado notar, em voz alta, a presença do mal.
Não digo que todos os brasileiros tenham se deixado submergir nessa atmosfera. Mas pelo menos as “classes falantes”, se é possível diagnosticá-las pelo que publicam na mídia, já têm sua consciência moral tão deformada que até mesmo suas ocasionais e debilíssimas efusões de revolta contra o mal vêm contaminadas do mesmo mal. Por exemplo, o fato de que clamem contra desvios de dinheiro público com muito mais veemência do que contra o massacre anual de 50 mil brasileiros (quando chegam a dar-lhe alguma atenção) prova, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que por trás do seu ódio a políticos corruptos não há uma só gota de sentimento moral genuíno, apenas a macaqueação de estereótipos moralistas que ficam bem na fita. E que ainda continuem discutindo “se” o partido governante tem parceria com as Farc, depois de tantas provas documentais jamais contestadas, mostra que estão infinitamente menos interessadas em averiguar os fatos do que em apagar as pistas da sua longa e obstinada recusa de averiguá-los. Recusa que as tornou tão culpadas quanto aqueles a quem, agora, relutam em acusar porque sentem que acusá-los seria acusar-se a si próprias. Quando, por indolência seguida de covardia, os inocentes se tornam cúmplices ex post facto, já não sobra ninguém para julgar o crime: todos, agora, estão unidos na busca comum de um subterfúgio anestésico que o suprima da memória geral.
Não, não se trata de “degradação dos costumes”, como nos EUA, na França, na Espanha ou em tantos outros países: Trata-se, isto sim, da perda completa do senso moral, o que faz deste país uma bela imagem do inferno. No inferno não há degradação, porque não há a presença do bem para graduá-la.'
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sábado, 18 de setembro de 2010
O pacato tem vida longa
'Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.' Mt.5 - 5

Para viver, deixe viver. As pessoas pacíficas não vivem apenas, reinam. Ouça e veja, mas mantenha-se calado. Um dia sem tensões significa uma noite repousante. Viver muito e com gosto é viver duplamente: é fruto da paz. Tem tudo aquele que não se preocupa com aquilo que não importa. Não há bobagem maior do que levar tudo muito à sério. Manter-se aberto àquilo que não interessa é tão tolo quanto não se envolver com aquilo que interessa.
Não se envolver em complicações.Eis uma das primordiais preocupações da prudência. É longo o caminho a percorrer de um extremo a outro, e os prudentes permanecem na área central da sensatez. É decisão amadurecida romper tal estado, pois é mais fácil tirar o corpo do perigo do que sair-se bem dele. As situações perigosas colocam nosso bom senso na berlinda, e é mais seguro evitá-las por completo. Uma complicação traz outra maior, conduzindo-nos à beira do desastre. Alguns são precipitados, por temperamento ou por nacionalidade, e é com rapidez que se envolvem em situações perigosas. Mas aquele que caminha à luz da razão avalia a situação e percebe que há mais valor em evitar o perigo do que em vencê-lo. Vendo que já existe um tolo imprudente, evita ser-lhe segundo.
Baltasar Gracián
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Céu e Inferno

“Um dia um aprendiz perguntou a seu mestre qual a diferença entre o céu e o inferno, e o mestre respondeu:
- Amado aprendiz, o inferno é como um grupo de pessoas sentadas ao redor de um monte de arroz delicioso, cada uma destas pessoas com talheres muito longo e por este motivo, estas pessoas não conseguem colocar o arroz na própria boca, por seu egoísmo (falta de compreensão!) morrem de fome.
- Já o céu, é um outro grupo de pessoas também sentadas ao redor de um monte de arroz, também com talheres muito longo, só que cada uma destas pessoas alimenta a outra, e por este motivo todos ficam satisfeitos e felizes.”
É verdade que não saberemos o real significado de dois lugares tão paradoxais e etéreos em vida, mas isso me fez questionar a possibilidade da existência de um céu e um inferno mesmo no mundo material.
Ora observando, ora participando, ora protagonizando episódios que se repetem como ciclos na vida de tantas pessoas, vejo como a mesma situação ou experiência pode ser encarada com conotações completamente diferentes por quem as vive direta ou indiretamente, abrindo espaço para a compreensão da noção a piori de céu, inferno e quem sabe até um purgatório físico/mental.
Sempre que somos colocados em situações de extrema carga emocional/sentimental somos levados a nossos extremos de conduta, de comportamento, permitindo que nossa consciência busque no âmago do nosso ser, forças, respostas, conformismo, ou mesmo um estado débil de contentamento (estado esse mais ligado ao purgatório físico). A diferença me parece estar ligada à forma como cada indivíduo encara essas experiências extremas, sendo fácil detectar as pessoas que optam por levar situações de forma mais realista, outras de forma mais emotiva, e outras de forma indiferente.
Cumpre frisar que dentro dessa análise não estou sequer analisando a possibilidade de absorção de conhecimento, bagagem de vida ou mesmo aplicação de situações traumáticas anteriores na resiliência dos fatos que servem de embasamento empírico para o que desenvolvo nesse argumento; trato aqui, apenas de uma escolha quase que instintiva de maneiras diversas de encarar as desventuras ou exacerbados sucessos a que estamos sujeitos ao longo de nossa jornada nesse imenso jardim do Éden, hoje com tantas e tantas árvores de frutos proibidos cada vez mais frondosas e apetitosas aos nossos olhos, que já se identificam com tais frutos não somente com a curiosidade da primeira mulher que o provou, mas com o temível conhecimento do bem e do mal, o tornando não somente a refeição principal do que nos afasta do paraíso, mas como uma doce e fatal sobremesa que chega ao estômago envolta em chamas furiosas.
É sempre mais convidativo à natureza acomodada e territorialista humana optar por levar tudo para o lado pessoal, principalmente quando estamos no pólo socialmente vitimizado da contenda, nos tornando convenientemente dignos de compaixão geral e opinião pública favorável, principalmente no contexto da sociedade brasileira, marcada por características mais cálidas, amistosas, abertas, para não dizer emocionais, frívolas e orgiásticas. O grande problema é que esse tipo de atitude, apesar de abrasadora para egos e consciências, é o que torna o homem para o lado do inferno em vida, trazendo para si perturbações e inquietudes infindáveis e sucessivas, ao contrário daqueles que aprenderam a adotar uma postura mais fria, madura e realista a despeito de eventualidades que possam atingi-lo pessoalmente (uma vez que é notoriamente fácil reagir com frieza, altivez e aparente maturidade diante de situações que não nos afetam interior, fisica ou financeiramente).
No meio do caminho estão aqueles que com sucesso amortizaram seus egos, vontades e desejos, ainda que não completamente, mas o suficiente para desfrutarem de um nível satisfatório de desapego, superação e indiferença quando colocados diante de medos, perdas e revezes, apenas sobrepondo-se a todo tipo de contrariedade, contudo sem se polarizar e transformar aquilo numa oportunidade, lição ou plataforma de transformação em algo positivo ou desejável. Geralmente essas pessoas são menos atormentadas em vida, porém possuem menos propensão para assimilar grandes alegrias e estados de prazer, uma vez que resignaram-se de tais sentimentos, bem como dos negativos outrora mencionados.
E por fim chegamos ao conhecimento dos querubins e serafins tácteis, aqueles que não só saíram do estado de penúria terrena, mas também impuseram silêncio aos desejos rasteiros humanos, vencendo a si mesmos, mas ainda foram capazes de fazer disso algo divino; que passa da água e do metal, surpassa o vinho e o ouro, atingindo um estado nobre de vida, como um processador de espinhos que fabrica pétalas perfumadas de rosas, que embora possuam espinhos para ensinar o preço de tudo na vida, inundam por onde passam com beleza, perfume e suavidade. São os esclarecidos de corpo, alma e espírito, que pouco valor dão a si mesmo, não se permitem identificar com a pequenez e o vazio terrenos, mas se encontram conscientemente num plano elevado de existência, como um corpo que vaga pelo mundo material, mas cujos olhos e espírito já estão no pós-morte, o paraíso.
Como tudo na vida, a escolha é particular, o caminho estreita-se à medida que subimos nossas pretensões. Mas como aquele que esvaziou-se de si voluntariamente sem carregar culpa alguma sempre estará sob o domínio das três áreas que parecem nos cercar antes mesmo da morte física. Que o sol brilhe fulgorosamente sob a face dos que para cima olham, enchendo suas vidas com o calor, a energia e a força necessárias para que alvas asas se abram por trás dos olhos dos que sonham e lutam.
"O que podemos saber é muito pouco e, se esquecemos o quanto nos é impossível saber, tornamo-nos insensíveis a muitas coisas sumamente importantes" Bertrand Russel
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
O Que Sobrou da Religião

'Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial durante o estado de morte clínica. Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos abertos. Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal, inclusive a do cérebro. A relutância em aceitar isso mostra que o “homem moderno” – o produto da cultura que herdamos do iluminismo – se identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí não se trata só de uma convicção, de uma idéia, mas de um transe auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.
Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a ameaça do escárnio e o temor – imaginário, mas nem por isso menos eficiente – da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera idéia filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela – é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante, encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo “cultural” e “científico” da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e variedade.
O “mundo real” no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse mundo são as “coisas físicas” e, em cima delas, o “pensamento humano”, as “criações culturais”. De um lado, a realidade dura da matéria regida por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade universal e inquestionável da “ciência”; de outro, a pasta mole e dúctil do “subjetivo”, do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo. Dessa esfera “subjetiva” faz parte a “religião”, que é o direito de crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais verdade objetiva ou valor universal.
Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma, regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando rompidas pela interferência do “milagre”, do “inexplicável”, do “divino”. Por mais que a filosofia esculhambe com o “Deus dos hiatos” (aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele é o único que restou no altar das multidões de crentes. Oficializada pelo establishment governamental, universitário e midiático, a rígida separação kantiana de “conhecimento” e “fé” tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas, embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e vice-versa.
Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não “está” no corpo mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si, não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor, um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o cérebro, isto é, o corpo, “cria” a cognição, o pensamento, a consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes) denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira, presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas vivências mais elevadas e sublimes.
Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra “eu”, referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor, voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como “cidadão”, amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da adequação social, adornado ou não de “moral religiosa”. Imaginem a diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o espírito.'
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Maiores, menores e a preguiça de pensar

'A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam seus tutores. É tão cômodos ser menor! Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que decide por mim a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo.
Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros hão de se encarregar em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade considera difícil e também perigosa a passagem à maioridade, pois aqueles tutores de bom grado se encarregaram de supervisioná-la. Depois de terem em primeiro lugar embrutecido o seu gado doméstico e cuidadosamente preservado essas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar nem um só passo fora do caminho em que as encerraram, e tal seria para aprender a andar, mostram-lhes depois o risco que as ameaça se tentarem andar sozinhas.
Ora, na verdade não é tão grande esse perigo, já que por fim aprenderiam muito bem a andar, depois de algumas quedas. Basta um exemplo desse tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo, de um modo geral, em suas tentativas futuras. É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da sua minoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor por ela, por ora sendo de fato incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque jamais o permitiriam tentar assim proceder.
Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes do abuso de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem dele se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro, ainda que sobre o mais estreito fosso, pelo fato de não estar habituado a esse movimento livre. Por isso são bem poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender uma marcha segura.
Mas que um público de esclareça a si mesmo é perfeitamente possível; mais do que isso, se lhe for dada a liberdade, é quase inevitável. Pois sempre se hão de encontrar alguns indivíduos capazes de pensamento próprio, até entre os tutores estabelecidos da grande massa, que, após terem sacudido de si mesmos o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por conta própria. Notável nesse caso é que o público, que anteriormente foi por eles conduzido a esse jugo, obriga-os daí em diante a permanecer sob ele, quando é levado a se rebelar por alguns de seus tutores, eles próprio incapazes de qualquer esclarecimento.
Vê-se assim como é prejudicial plantar preconceitos, porque terminam por se vingar daqueles que foram seus autores ou os predecessores destes. Por isso, um público só muito morosamente pode chegar ao esclarecimento.
Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, mas jamais produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cinturões para conduzir a grande massa destituída de pensamento.' ¹
¹ - Resposta à pergunta: Que é "Esclarecimento"? ("Aukflarung")
(5 de dezembro de 1783, p. 516 - Berlinische Monatschrift)
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Um Coração Forte

Todo conhecedor, estudioso, ou mesmo entusiasta das ciências humanas, e até mesmo das biológicas sabe, ainda que sem dar a isso muito destaque, que o ser humano funciona através da experimentação e adaptação. Entramos em contato com diversos tipos de informações, sentimentos e situações ao longo da vida, que moldam aos poucos nossa capacidade de lidar com cada um desses eventos. Somos seres adaptativos, que se moldam ao meio em que vivem e com o tempo se acostumam à mais íngreme diferença climática, cultural ou social.
É de interesse de todos viajar, conhecer novos países, culinárias, hábitos, línguas, pessoas, etc. Procuramos ler vários livros, revistas, ver todo tipo de filme pelo menos uma vez, experimentamos pratos diferentes, ainda que a contragosto; primando sempre por nos expandir. Sabemos que a quantidade e a diversidade de informação acrescentam valor ao que somos, nos tornando mais cultos, compreensivos, sábios e inteligentes... Sem dúvida a experiência é uma das formas mais eficientes (mas não mais fáceis) de adquirir conhecimento, e todos sabemos disso.
Eu me pergunto, no entando, por que somos incrivelmente reticentes a essa ideia quando a experiência, pode nos causar qualquer tipo de dor ou sofrimento.
Pessoas decidem sem pestanejar viajar pelo mundo, ou provar alimentos exóticos, conversar com desconhecidos, mas dão tudo o que tem para fugir de qualquer situação conflituosa, ou com potencial de trazer qualquer tipo de dificuldade ou esforço exacerbado.
Mas é inegável que quando passamos por isso, após breve reflexão, fica claro que aquele tipo de situação foi a que mais contribuiu pro nosso crescimento e fortalecimento, nos dando consequentemente, mais condição de criar um ambiente desejável ao nosso redor, ou de com maior destreza evitar uma possível recorrência desse male, seja num futuro próximo ou distante.
Assim como nossos músculos, nossos sentimentos só se fortalecem ao serem esticados e relaxados por diversas vezes. Não, não faço aqui uma apologia à dor, pelo contrário. Que ela seja exceção na nossa vida, mas que como a alegria, seja encarada como algo natural, que independente de desejada ou não, acontece, mas quando vai embora, pode deixar algo mais que uma passageira sensação de prazer ou satisfação.
A vida se torna imensuravelmente deplorável quando se resume à busca de sensações agradáveis e ao distanciamento de qualquer desafio, dificuldade ou sofrimento.
É pela repetição que uma situação primordialmente apocalíptica pode se tornar uma pequena pedra no sapato de um homem, que sequer se incomoda ao chutá-la para fora de seu caminho; conferindo-lhe o luxo de apenas passar adiante dos demais que se deitaram pela estrada, exauridos pelo menor espinho cravadona planta de seus pés.
Já que aprendemos a enfrentar a tudo e a todos como traço característico-social-contemporâneo, que tal aproveitar a viagem para fazer o mesmo com o indesejado e o infortúnio?
Um coração forte é aquele que foi desmantelado e reconstruído várias vezes, que escapa de cravos e lanças como um guerreiro experiente e corajoso.
E sem dúvida a vitória em uma batalha como essa trará mais honra, excelência e força para os que ousaram combatê-la.
Me orgulho das guerras que travei, não somente das que venci.
Pois para caminhar sobre a ponte do primeiro grande castelo conquistado, foi necessário levantar e caminhar sobre os escombros de vários próprios que foram destruídos.
Que venham outras grandes batalhas; guerreiro algum irá correr do local onde Deus um dia o consagrou.




