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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Filosofia Prática para Leigos

- A Filosofia é aplicável à vida?


Essa é uma questão que muitos tendem a responder negativamente; relacionam filosofia apenas a teoria, especulação, ideias, tudo que sozinho não pode produzir frutos na vida prática (lembrando que ao contrário do que a sociedade materialista apregoa, o campo da prática não está restrito a práticas sensoriais e físicas). A realidade é que essa noção não poderia estar mais equivocada. Vejamos:

'Entre as numerosas perguntas que, sem cessar, me são feitas sobre os cursos de Filosofia que leio e os livros que escrevo, essa é a mais frequente. Todos querem saber se a Filosofia tem qualquer relação com a vida humana, ou se é apenas uma teoria abstrata, para horas de ócio e lazer.

Por detrás dessa pergunta está latente a ignorância ou o erro que os consulentes nutrem a respeito de Filosofia. Para mim, teoria que não tenha nexo com a vida humana não é Filosofia. O fim primário da verdadeira Filosofia, é precisamente este: dar ao homem uma norma de vida, firme e indestrutível, um roteiro seguro de pensar e agir, de maneira que possa atingir a plenitude da sua evolução e, destarte, alcançar imperturbável felicidade.

As religiões, é verdade, também procuram realizar esse objetivo; mas as normas que elas dão a seus adeptos têm de ser criadas e aceitas cegamente como dogmas fixos e imutáveis - ao passo que a Filosofia leva os seus discípulos a compreenderem racionalmente, por experiência própria, a última razão-de-ser dessas normas; não exige fé teológica, mas prepara os caminhos para que o candidato à suprema sabedoria (sophia) possa, finalmente transpor o limiar do santuário e entrar em contato direto com o mundo invisível, que rege todos os mundos visíveis e, sobretudo, a vida humana. Sendo que este mundo invisível é o único mundo plenamente real, segue-se que só o homem que realiza a si mesmo pelo descobrimento do seu Eu central é que pode conhecer por experiência própria esse mundo da Realidade integral.

O cultor de dogmas religiosos é um crente - o iniciado na verdade da Filosofia é um sapiente.
É natural que o número dos crente seja maior, no estágio atual da evolução humana, do que o dos sapientes, porque o crer é relativamente fácil, ao passo que o saber exige uma disciplina tão intensa e prolongada que são poucos os que trilham esse "caminho estreito" e passam por essa "porta apertada", que dá ingresso ao Reino de Deus, da verdade e da felicidade.




                                                            * * *

Entretanto, o que a maior parte dos consulentes deseja saber, quando pergunta se a Filosofia é aplicável à vida prática, é o seguinte: sendo que todo homem adulto tem os seus dolorosos problemas, estão todos interessados em descobrir uma fórmula segura e de fácil aplicação que lhes garanta solução desde ou daquele problema da sua vida. Uns são infelizes nos seus amores; outros não tem sorte nos negócios; muitos são vítimas de doenças que lhes amarguram a vida - e assim por diante. É natural que cada um desses sofredores espere da Filosofia solução ou alívio nos seus dissabores.
Pode a Filosofia melhorar a vida humana, aqui na terra?
Pode, sim, ou melhor, a Filosofia, assim como nós a entendemos, é o único meio certo e seguro para encher de sólida tranquilidade e paz a alma e a vida do homem que com ela se identifique. Entretanto, são relativamente poucos os que experimentam esses efeitos benéficos da Filosofia Perene. Por quê?

Muitos esperam da Filosofia efeitos imediatos, mais ou menos como o efeito de um comprimido que, dissolvido na água, dentro de poucos minutos acaba com a dor de cabeça ou neutraliza a azia de estômago; ou como uma injeção que dá alívio rápido ao padecente.
Não é deste modo que a Filosofia atua sobre a vida humana, e isto por uma razão muito simples: é que ela, precisamente por ser "filosofia" (amor à sabedoria), não está interessada em curar sintomas de males, mas o próprio mal pela raiz. Como, porém, o mal fundamental da humanidade vem de longe e tem raízes profundas em cada ego pessoal, não é possível neutralizar esse mal em "três meses, com 36 lições", como certos faquires mentais prometem a seus ignorantes e ingênuos discípulos. A verdade atua segura, mas lentamente, porque tem de penetrar profundamente todos os elementos que constituem o homem: alma, mente e corpo; tem de eliminar as velhas e inveteradas toxinas da personalidade e substituí-las pelas seivas vitais da individualidade cósmica do homem perfeito e integral. Também, como poderia alguém esperar que os venenos da consciência físico-mental, eivada de egoísmo, fossem depurados em tão pouco tempo, quando a sua formação na personalidade humana remonta a 30, 50, 80 anos, e sua origem no seio do gênero humano data de milhões de anos?

O que a maior parte quer saber é se a Filosofia exerce impacto sobre a "vida prática", individual e social do homem; se dá saúde, se promove os negócios, se facilita a conquista de um bom emprego, se constrói um lar feliz, se facilita os estudos e os exames, etc., etc.
Respondemos com um afoito "sim" a todos esses quesitos, e isto sem o menor receio de errarmos, porque, além de milhares de fatos históricos, temos a nosso favor o testemunho da mais alta autoridade no assunto, o homem mais feliz do mundo, que disse: "Procurai em primeiro lugar o reino de Deus e sua justiça, e todas as outras coisas vos serão dadas de acréscimo".
Todas essas "outras coisas" que nos serão dadas de acréscimo são as que acabamos de enumerar, e muitas outras.


A Filosofia trata daquilo que o homem é, da sua qualidade interna, do seu sujeito ou Eu, que Jesus chama "alma"; mas é um dos erros comuns e funestos supor que o elemento espiritual da qualidade deva substituir os elementos materiais da quantidade, os objetos externos, aquilo que o homem tem ou pode ter. Os grandes iluminados não falam em substituição, falam em integração das quantidades externas na qualidade interna. Se por vezes parece haver substituição das quantidades materiais pela quantidade espiritual, trata-se de uma fase de transição, de algo provisório, para que o homem materialista por meio do caminho da espiritualidade ascética, se habitue a ser homem espiritual e perfeitamente integrado no Universo de Deus.
Nesta altura, prevenimos insistentemente todos os candidatos inexperientes à auto-realização: que o "reino de Deus" deve ser procurado, em primeiro lugar, isto é, que o homem não deve, em hipótese alguma, servir-se das coisas espirituais como meio para o fim de alcançar as coisas materiais, porque isto seria procurar estas em primeiro lugar, como fim último, e degradar aquelas a segundo lugar, como simples meio. Semelhante procedimento seria uma inversão das eternas leis da Constituição Cósmica, erro que impediria que as "outras coisas" nos fossem dadas de acréscimo.

E é precisamente aqui que está o ponto nevrálgico e a última razão por que a maior parte dos aspirantes ao reino de Deus se sentem desiludidos e frustrados no seu intento e acabam por considerar a Filosofia como simples miragem. Secretamente, fazem consigo mesmos este cálculo ou raciocínio: tratarei das coisas espirituais, a fim de ter sorte nos afazeres materiais.

Sobre esta base falsa, anticósmica, pretendem então construir o edifício da sua prosperidade e ficam decepcionados quando as "outras coisas" que lhes foram prometidas como resultados certos, não aparecem. Culpam então, a Filosofia dos grandes Mestres - quando, na realidade, os únicos culpados são eles mesmos. Tentaram camuflar ou subornar a Constituição Cósmica; tentaram derrubar com a cabeça o Himalaia da eterna retitude.

A atitude correta que o homem deve assumir é esta: tratar das coisas do "reino de Deus" incondicionalmente, sem segundas intenções, sem restrições mentais, e prosseguir invariavelmente nessa atitude retilínea, quer venham quer não venham resultados materiais. Se o homem se entristece quando não aparecem resultados palpáveis, é prova de que a sua atitude interna era falsa, que procurava secretamente subordinar o mundo espiritual ao mundo material. É claro que as leis da Constituição Cósmica não favorecem semelhante atitude. Só quando o homem é 100% desinteressado nos resultados materiais é que ele verificará que "todas as outras coisas" lhe são dadas, e precisamente porque ele não as procurou nem fez depender delas o prosseguimento da sua espiritualidade. É este o estranho procedimento de todas as coisas no mundo: quando procuradas e apetecidas pelo homem, fogem dele - mas, quando abandonadas por ele ou tratadas com serena indiferença e espontâneo desapego, então essas coisas correm no encalço do homem e se lhe oferecem.

Algum diz a Filosofia Cósmica descobrirá e definirá essa grande lei: que o homem meramente intelectualizado, sem espiritualidade, cria em torno de si uma espécie de campo magnético de atuação centrífuga, estabelecendo uma polaridade hostil entre si e a Natureza, que foge dele, repelida pelas auras negativas do homem luciférico; mas, assim que o homem ultrapassa a zona da mera intelectualidade e entra no mundo da racionalidade espiritual - eis que o campo magnético se inverte, passando a atuar em sentido centrípeto, como força de sucção, atraindo para o homem todas as criaturas da Natureza. Com outras palavras: o homem que não encontrou a si mesmo, o seu divino sujeito, afugenta de si todos os objetos em derredor - mas o homem que encontrou o reino de Deus em si mesmo atrai a si todas as criaturas de Deus. A auto-realização produz automaticamente as alorrealizações, mas a falta de auto-realização torna impossíveis as alorrealizações.

Em uma palavra: o único modo seguro e certo para realizar as "outras coisas" é o homem realizar-se a si mesmo, o "reino de Deus dentro de si".

Até aqui, pelo menos 90% dos nossos leitores - ou talvez 99,9 - já devem estar desenganados, porquanto é difícil criarmos dentro de nós esse clima de desinteresse em face dos resultados palpáveis dos nossos trabalhos. Para a imensa maioria dos homens da presente evolução, não há incentivo suficiente para um trabalho eficiente e constante quando não existe a perspectiva de uma recompensa correspondente em forma de resultados materiais.

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A Filosofia, como se vê, é um tremendo desafio, uma escola de disciplina rumo à verdade; ela não é ocupação para personalidades fracas e vacilantes (instáveis), nem pode ser praticada como hobby em horas de devaneio e passatempo. Exige dos seus adeptos uma auto-educação tão sincera e retilínea que, segundo as palavras do divino Mestre, são "poucos os que trilham esse caminho estreito e passam por essa porta apertada", porta que, não raro, se assemelha a um "fundo de agulha". "Muitos são os chamados - poucos os escolhidos." Mas esses poucos dispostos a pagar o preço da sua auto-realização - se derão por muito bem pagos por toda a disciplina que, voluntariamente, tomaram sobre si, porque descobriram o "tesouro oculto" e encontraram a "pérola preciosa" da Verdade Liberdadora, que lhes abriu o cárcere.

Entretanto, se alguém quer saber em 2 ou 5 minutos se a Filosofia é aplicável à vida, ninguém lhe poderá dizer de um modo compreensível. O único mode de saber da Verdade é vivê-la em si mesmo - mas essa vivência não lhe pode ser dada por terceiros. Quem não viveu a Verdade não sabe o que ela é. O que os outros podem fazer é tão-somente preparar-nos os caminhos e criar em torno de nós uma atmosfera propícia. A experiência, porém, é algo eminentemente individual, instranferível, como o próprio ser de cada um.

E, uma vez solvido o problema central da vida humana, todos os outros problemas periféricos estão solucionados, ou em vias de solução.
Na realidade, não há nada mais "prático" do que a Filosofia.

"Quem puder compreendê-lo, compreenda-o!" '



"Há uma grande diferença entre 
conhecer o caminho e percorrê-lo"


2 comentários:

Fernanda Rodrigues disse...

Nada melhor para comentar do que repetir o trecho: "o único modo seguro e certo para realizar as "outras coisas" é o homem realizar-se a si mesmo, o "reino de Deus dentro de si"".

Marcos Carvalho disse...

Exatamente. Esse é o meio pelo qual o homem cumpre seu propósito terreno, se religa com o Criador e tem a possibilidade de retornar à sua essência da criação. Meio sem o qual é impossível comungar com Deus ou habitar em Seu reino.