Followers

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A Verdade Sobre o Brasil

*texto traduzido e adaptado do original: The Truth About Brazil; postado originalmente aqui.

Crítica escrita por um dinamarquês que conheceu o Brasil, em resposta a diversos brasileiros que entravam na maior comunidade da Dinamarca do orkut para depreciar o país escandinavo, na maioria das vezes sem grande embasamento ou sutileza em suas colocações:


"Agora que vejo que tem tantos palhaços invejosos aqui, que não tem nada melhor pra fazer de suas vidas a não ser vir a uma comunidade da Dinamarca e expressar o quanto eles desgostam do país, acho que é hora de atirar de volta ao Brasil.

Sei absolutamente todo tipo de problemas que um estrangeiro pode ter no Brasil, e penso que assim posso poupar algum estrangeiro desavisado de muitos problemas - o que foi a maior razão de eu ter escrito essas coisas, e faço-o por anos.

Claro que possuo um certo grau de satisfação pessoal ao fazer isso; visto que fui maltratado por brasileiros em algumas situações e sei que não sou o único. Então quando tentam me calar quando digo essas coisas, fico com ainda mais raiva e determinação de dizer o que eu quero.

Considero minha visão extremamente bem fundamentada, baseada não somente em experiência própria, mas em centenas de outros estrangeiros que conviveram com brasileiros intercambistas e que assim adquiriram ainda mais conhecimento sobre sua cultura, tanto quanto é possível adquirir sendo um estrangeiro. Ademais, já visitei o país várias vezes, falo sua língua, etc.

Você pode se perguntar o que é mais provável; que pessoas do mundo inteiro conspiram juntas para mentir sobre o Brasil e os brasileiros estão dizendo a verdade, ou o que pessoas de diferentes origens e com diferentes experiências dizem é verdade e são os brasileiros que tem um problema ao encarar diversas complicações em sua cultura. Acho que a resposta pra essa pergunta é bastante evidente.

Agora é fácil identificar diversos tipos de comportamento. Mas o que é mais difícil é saber por que pessoas se comportam de certas maneiras. Posso observar como os brasileiros se comportam, mas as razões psicológicas mais profundas que os motivam, são algo sobre o que eu só posso especular.

Ainda assim acho que ouso especular um pouco, pois acredito que faça sentido em virtude de outros comportamentos irracionais que os brasileiros frequentemente demonstram. Então, no fim farei uma conclusão nas minhas observações.

Isso não será um quadro completo de como eu penso que o Brasil é, haverá um foco nos aspectos negativos do país nesse texto. Não quer dizer que eu acho que não há nada de bom no país e na sua população.






Parte 1: A reação alérgica contra estrangeiros que os criticam


Bom, se você nunca esteve no Brasil, deve estar se perguntando o que tem demais nisso; ok, não é legal ser criticado mas você certamente não pode esperar que todos gostem de você... e aí?

Mas pra muitos brasileiros é realmente um escândalo se um estrangeiro expressa críticas a sua cultura. Quando na realidade, em algumas situações eles preferem impedir que os outros tenham qualquer tipo de opinião sobre eles ou seu país do que ouvir qualquer tipo de coisa. Qualquer um que tenha frequentado essa comunidade ao longo dos anos sabe o quão sensíveis eles são quando um estrangeiro diz algo ruim sobre eles. Até a mínima coisa pode se tornar um escândalo. É um tipo de supersensibilidade que eu nunca percebi em relação a outro país.

Os estrangeiros inexperientes, que não tenham ideia do tipo de colméia em que estão colocando a mão, ficarão chocados. Especialmente se ele apenas a tocar por acidente.

O estranho é que ao conversar sobre essas coisas entre duas pessoas, não parece ser um problema falar as verdades sobre um brasileiro. Mas num lugar público como esse, eles frequentemente reagem como se estivessem querendo lhes arrancar os dentes sem nenhuma anestesia.

Eu sei, você deve estar pensando: "Por que falar dessas coisas, se eles não gostam disso?" Claro, em circunstâncias normais não haveria motivo para fazer isso. É sempre uma boa ideia ser um pouco diplomático quando você viaja ou vive num país estrangeiro. O problema é que os brasileiros são TÃO sensíveis, que eles podem ser difíceis de ser evitados. E você não deve esperar nenhum tipo de respeito ou que admitam que você está certo se você souber do que está falando. E em momentos de raiva e negação, algumas vezes te acusam de ser racista.

Essa não é uma boa maneira de se comportar, especialmente levando em consideração que eles sabem perfeitamente que você tem razão no que está falando. Então, é claro, fico um tanto desanimado quando confrontado com esse tipo infeliz de comportamento. Eu só não vou aceitar que pessoas me tratem desse jeito. O que essas pessoas parecem não perceber é que quanto maior a veemência com que negam o que estou dizendo, mais eles parecem uns xenófobos imbecis.

Parte 2: A hipérbole emocional

Isso me lembra de algo que me disseram logo antes de eu ir lá pela primeira vez: "Brasileiros são boas pessoas, você só não deve provocá-los". No começo não pensei muito sobre isso, mas depois de um tempo essa ideia soava meio estranha; certamente é apenas senso comum que você não provoque as pessoas. Me pareceu um conselho desnecessário. Então talvez ele deve ter tido a intenção de dizer que brasileiros são mais facilmente irritáveis? E reagem mais agressivamente?
Hoje em dia tenho certeza que era isso que ele quis dizer.

As descargas emocionais descontroladas que você verá lá podem ser embasbacantes. Eu fiquei impressionado com isso frequentemente. Mas o que é particularmente pertubador nisso é que na maioria das vezes tudo não passa de uma atitude teatral. Uma performance encenada, que depois de vista um certo número de vezes, começava a se tornar cansativa.

Mas os brasileiros gostam disso, o presidente deles, Lula, foi muito popular, em parte, por frequentemente cair em prantos publicamente. Na maioria dos outros países isso seria visto como algo embaraçoso, mas muitos brasileiros amam esse tipo de apelo emocional. Muitos deles gostam de chorar, então não é de se surpreender que um presidente chorão se torne muito popular.

Parte 3: A cultura sexualizada

Algo que fica bem claro logo que você chega ao país, é que sexo é um ponto alto em suas agendas. É uma cultura extremamente sexualizada em vários aspectos. Eles tem um estilo de vida exibicionista, em que pessoas gostam de mostrar seus corpos, mulheres usam bikinis de fio-dental, homens ficam malhando nas praias e por aí vai. Se você for em uma boate lá, não se surpreenda se alguém te encoxar, principalmente se você for uma mulher. A linguagem usada por eles é geralmente muito baixa e direta, constantemente se referindo a sexo. Podem ser palavras como viado, puta, tarado as primeiras que você vai ouvir. E normalmente são ditas de uma forma suja e insinuosa, como se sexo fosse a única coisa que importa na vida.

Na cultura popular isso também é evidente. Você tem o carnaval, com mulher nuas dançando ao seu redor, tem alguns estilos de música, como o Funk Carioca, onde as danças que eles fazem e as letras que cantam só podem ser descritas como sexo explícito. Totalmente sem restrições ou qualquer tipo de bom gosto, apenas uma descrição rasa de mulheres como nada além de vadias.

Se você é minimamente prudente, certamente não deve ir ao Brasil. Eu me lembro de uma vez ter encontrado um cara da Inglaterra no aeroporto do Rio. Ele era um Cristão mas tinha decidido voltar pro seu país antes do planejado por ter tido algumas experiências negativas. "Para muitos desses países de terceiro mundo eu realmente não posso esperar pela hora de ir embora"; ele disse - "Eu não podia mais aguentar isso. Digo, as pessoas só pensam em sexo. Será que não há mais nada na vida além de sexo? Que país insano".

Não sou tão sensível como esse Inglês quando o assunto é sexo; mas devo dizer que a descrição dele de um país superficial onde muitas pessoas tem uma fixação insana sobre sexo, é algo que com que eu devo concordar. Um assunto que sempre surge quando brasileiros conversam sobre como eles são vistos no mundo, é a imagem de prostituta que eles acham que a mulher brasileira tem. Isso mostra como eles tem ciência da imagem e do problema que o comportamento de muitos deles cria.

Parte 4: As brasileiras são prostitutas?

Sempre vejo discussões sobre mulheres brasileiras. Por experiência própria posso dizer que não considero que as brasileiras em geral tenham comportamento de vadias. A maioria delas são decentes pelo aspecto de muitas procurarem ter um relacionamento estável. A maior razão que ouço delas para que elas namorariam um estrangeiro, é porque os brasileiros não são homens fieis. Se isso é verdade ou apenas uma desculpa barata, é difícil para eu dizer, sendo um homem. Mas certamente acontece muita traição rolando quando você vê as novelas e programas deles. Frequentemente você vai ver na televisão brasileira que alguém foi baleado por causa de ciúmes.

De qualquer forma, acho que as músicas sentimentais e de corações partidos que eles ouvem no rádio e nos programas de TV tem um efeito de disparar todas essas emoções.

Então, acho que a mulher brasileira, em geral, é legal. Não são perfeitas em seu comportamento, mas também não são prostitutas, levando-se em conta qualquer padrão razoável.

No entanto, não é de se orgulhar ao dizer que existe um número consideravelmente grande de mulheres no Brasil que se comportam de uma maneira incomumente vulgar e desinibida. Não estou falando das que são realmente prostitutas, mas das que se exibem e entregam seus corpos por aí de graça. Essas são as que afundam a imagem do Brasil, muito mais que as prostitutas profissionais. Pelo menos as profissionais, muitas vezes são forçadas pelas circunstâncias a fazer o que fazem.

Em muitas culturas ao redor do mundo a mulher devia se fazer de difícil. Ela não devia ser tão fácil; é o jeito dela de dizer "Ei amigão, você pode até ficar comigo, mas eu tenho valor, então é melhor ser especial se você me quer". Dessa maneira ela se dá valor.

Se uma mulher pula na cama com um estrangeiro e declara seu amor para ele, ele não terá nenhum respeito por ela. E por uma boa razão; não só ele conseguiu o corpo dela facilmente, como uma coisa ainda mais importante: seu chamado, "amor", foi aparentemente entregue de graça. Para um homem, essa mulher não é nada além de um pedaço de carne. Ele vai querer ficar com ela pelo sexo, mas ele só ficará feliz por ela; ou com pena. Assim como muitas outras pessoas.

Eu não tenho problema com mulheres que transam com um cara só pelo prazer do sexo. Esse é um desejo físico natural. O que eu não suporto é se ela fala de amor imediatamente após abrir suas pernas pra um cara. Você não ama uma pessoa que acabou de conhecer. Se uma mulher começa com papinho romântico nessa hora, ela começa a demonstrar ser louca, fraca, ou desesperada por atenção, uma pessoa falsa ou envergonhada do próprio desejo sexual.
Ou, o que é pior, uma pessoa que iguala sexo e amor em todas as situações, mesmo quando o dá facilmente ou (indiretamente) o vende. Muitas mulheres brasileiras se comportam desse jeito. Isso é doentio na minha opinião. Quer dizer que se ela pode ser tão fácil e dada como você pode imaginar, mas ainda tem todo tipo de sonhos sobre amor e coloca uma pitada de romance na sua conduta suja. Como resultado disso, muitas mulheres são exploradas, tanto pelos homens de seu país, como por estrangeiros. É realmente muito triste que elas não tenham nenhum senso de valor como seres humanos. [me deu uma vergonha imensa ler isso...]

Pensando nisso, o comportamente de muitas mulheres brasileiras me lembra o comportamento de algumas mulheres que sofreram abuso durante a infância; que tiveram uma experiência traumatizante na infância que as machucaram por toda a vida. A irônia disso é que muitas delas continuam se deixando abusar mesmo quando adultas. Assistindo entrevistas com prostitutas e atrizes pornô elas frequentemente contam o porque de terem escolhido aquelas 'profissões'. Acaba que muitas delas dizem ter sido abusadas na infância; abusos que quebraram as barreiras delas de um comportamento normal. Algumas delas descrevem suas profissões como uma 'vingança' contra aqueles que abusaram delas, porque agora elas tem a sensação de terem controle sobre o que está acontecendo. Aparentemente elas não conseguem enxergar que continuam sendo abusadas, agora de novas formas.

Mulheres que se comportam desse jeito podem ser encontradas por todo o Brasil, embora eu deva dizer que essa é mais acentuadamente encontrada no norte ou nordeste do país. é onde você encontra as pessoas mais pobres e ignorantes. Especialmente vagabundas de classe média-baixa apresentam esse tipo de comportamento.

Parte 5: Os homens brasileiros são "machos"? (expressão utilizada comumente para caracterizar homens viris, especialmente no contexto latino conhecido mundialmente)

Os homens brasileiros são supostamente muito machos. Ou pelo menos é o que dizem, pelo fato de terem uma cultura latina. Mas os brasileiros, em sua maioria, não dão a impressão de serem assim de forma alguma. Ao contrário, eles são bastante fracos e femininos. Muitos deles são feminilizados; literalmente ou em suas atitudes.

Se você imagina que um macho é um homem agressivo, confrontador, dominante e daí em diante, vai se surpreender, porque a maioria dos brasileiros não são assim. No máximo, são um tanto evasivos e tem uma tendência irritante de se ofenderem facilmente - um tipo de comportamento, no mínimo suspeito.

Um das coisas que considero comportamento masculino é que você recebe críticas como um homem - isso é, de cabeça erguida, sem choramingar. Mas esses homens são vistos em poucas quantidades no Brasil, eles normalmente ficam tão tristinhos quanto as mulheres quando alguém perturba o seu mundinho da fantasia. Ver homens se comportando como mulherzinhas é uma coisa realmente triste de se ver.

Uma maneira de mostrar o quão "machos" eles são, parece ser traindo suas namoradas ou noivas. Isso não é atitude de homem de verdade, mas de um "puto" (sentido latino da expressão), que não passa nenhuma confiança. Não é de se espantar que tantas brasileiras se casem com estrangeiros.

Parte 6: A postura pseudo-intelectual

Um fenômeno peculiar que você provavelmente não vai notar de imediato, é a tentativa de muitos brasileiros de impressionar os outros com sua inteligência e sabedoria. Isso requer que você entenda Português a um certo nível para que perceba o nível de autopromoção, infantilidade, veja-como-sou-inteligente-eu-sou, de atitude que muitos deles possuem.

Enquanto o nível educacional aumenta gradualmente, também aumenta o número de brasileiros que se acham muito inteligentes - e querem mostrar isso. O resultado disso é que existem vários "filósofos" e "intelectuais" por aí que querem compartilhar sua grande sabedoria. Frequentemente citando Sócrates, Platão, Volteire ou algum outro filósofo Europeu famoso, para apimentar suas rasteiras e banais opiniões.

Hah! Isso é de matar de rir. Especialmente na cidade de São Paulo e na Região Sul do Brasil, você deve conhecer muitos desses cabeças de vento. É uma absolutamente uma praga.

No começo você pode rir disso, mas depois de conhecer 3 ou 4 desses moleques, que tentam mostrar desesperadamente seu conhecimento obscuro sobre algum assunto relacionado aos Vikings, à Revolução Francesa, Filosofia Grega ou qualquer outra coisa, começa a ficar muito cansativo. Esse tipo de lixo pseudo-intelectual é irritante. Eles se apressam para mostrar quão grande é seu conhecimento, mas quando um estrangeiro mostra que conhece algo sobre o Brasil, então esses hipócritas não gostam nem um pouco.

Parte 7: O complexo de inferioridade

Eu só posso concluir que os brasileiros tem algum complexo de inferioridade. O desejo de se mostrar fisicamente e intelectualmente, em busca de reconhecimento e a forte reação que um estrangeiro tipicamente encontra ao tocar em certos problemas, é uma prova disso. Séculos de opressão e abuso deixaram cicatrizes mentais que não foram apagadas ainda.

Só uma dica - ou algo entendido como ofensa súbita sem o ser - pode ser suficiente para ativar essa cachoeira de sentimentos de vergonha e inferioridade.

Isso me faz pensar se nós na Europa não subestimamos a consequência de 500 anos de exploração de diferentes partes do mundo. Penso que o dano psicológico feito nessas pessoas no processo de colonização foi mais profundo do que muitos imaginam. Eles parecem se sentir vítimas e claramente não gostam de pensar sobre isso, devido a uma negação fanática da realidade que as vezes lhes é mostrada.

Desculpa pessoal, mas em muitas situações brasileiros NÃO são legais com os estrangeiros. Não só quando ocorre um assalto casualmente nas ruas, mas em muitas outras situações cotidianas. Sei que você pode encontrar estrangeiros que falem com grande entusiasmo sobre como é um lugar lindo, mas eles normalmente são pessoas que precisam manter alguns brasileiros felizes, como sua namorada ou sua esposa. A ameaça de não conseguir sexo pode fazer com que muitos homens se desviem da verdade para agradar a "rainha" em casa.

Existem vários outros estrangeiros que vivem em algum país, odiando-o, nunca mais querendo voltar ali. Eu costumava ser um deles, até eu esfriar a cabeça e decidir dar uma segunda olhada naquele lugar. Você realmente não ouve falar desse tipo de pessoa no Brasil.

De qualquer forma, não estou reclamando. Eu conheço o país hoje, sei como conseguir o que eu quero dele e como evitar o mal que faz parte daquele lugar. Mas me sinto mal por aqueles babacas inocentes que só querem chegar lá sem saber como, digamos, quão exoticamente os brasileiros se comportam. Eles vão ter que aprender as coisas do jeito mais difícil, como eu fiz - a menos, é claro que eu esteja fazendo um grande favor à humanidade escrevendo essas coisas pra eles, então eles tem uma pequena chance de evitar certas experiências desagradáveis.

De certa forma, é uma grande pena, porque eu realmente gosto do Brasil e do seu povo; brasileiros podem ser amigáveis, hospitaleiros e animados baladeiros. Estou certo de que essa é a maneira que eles gostariam de ser vistos; pessoas felizes, amigáveis com quem você pode dar boas risadas, tomar umas. Mas isso é apenas parte da realidade daquele país; logo, as coisas não são completamente preto-no-branco. Tenho alguns bons amigos por lá.

Então se alguns brasileiros se sentirem ofendidos por isso, não devem levar para o lado pessoal. Como dizemos na Dinamarca;

Den man elsker tugter man / Os que você ama, você trata com rigor."

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Sexo e meninas são vendidos nas feiras da periferia

Título original: Meninas fáceis


E aí, leitor de 15 anos? Diga-me cá uma coisa: é verdade que as meninas hoje transam muito? Quantas já deram em cima de você, fazendo você se sentir um frouxo se "não comparecer" quando ela quiser?

Atenção terapeutas de plantão: não me venham dizer que as meninas hoje em dia "evoluíram" e que querem meninos sensíveis, porque, para elas, meninos sensíveis só são bons para tirar sarro. E que fiquem fora da cama delas. Ou seria fora do carro delas? E aí, leitora de 40 anos, você acha esse papo muito vulgar?

Mulher fácil.Sinto muito, as meninas "evoluíram" e agora são senhoras dos seus desejos e isso basicamente quer dizer: são fáceis. Quer saber? Acho uma hipocrisia ficar lamentando que as meninas estejam transando por aí. Todo esse estardalhaço com relação "as pulseiras do sexo" é puro blá-blá-blá. Se as meninas estão transando por aí, é porque dissemos a elas que isso é legal, não?

Vejamos. Mas, antes, um reparo.

Repito o que já disse: não acredito que se faça melhor sexo hoje em dia, acho sim que hoje existe muito marketing, muito papo furado, muita mulher sozinha que se veste pra si mesma num ritual macabro de vaidade e... muita gente brocha.

A chamada "revolução do desejo" serve para ganhar dinheiro com publicidade, livros de sexo chique e para aumentar a sensação, em seres humanos reais, de que todo mundo está transando menos você.

Mães de 50 anos se deliciam em vender a imagem de si mesmas como máquinas de sexo. Na realidade, no silêncio de seu quarto escuro, são umas invejosas, que queriam ser como suas filhas: mulheres fáceis.

Professoras inseguras com seus corpos cansados, atônitas com a inutilidade última de toda sua inteligência diante da chacina que é a vida cotidiana, invejam as suas alunas deliciosas que desfilam pernas e seios por aí, dançando a dança do acasalamento. Sim, deveriam tê-las avisado que a vida se repete exatamente naquilo em que ela é miserável: medo, inveja, baixa autoestima e abandono.

Cursos chiques trabalham o corpo para que ele seja fácil de manipular na cama, no carro, no banheiro.
Teorias psicológicas e filosóficas empacotam a vontade de ser fácil em papel de presente fingindo que existe mesmo uma coisa chamada "sexo revolucionário". E aí, quando os padres fazem sexo com meninos, os revolucionários de meia pataca põem o rabo entre as pernas e se escondem porque não têm coragem de enfrentar o horror do sexo "livre".

Não existe sexo livre, existe apenas sexo sem amor.

Comédias de TV idealizam mulheres urbanas que transam assim como quem corre em esteiras aeróbicas (ou seriam "anaeróbicas"?), calculando o "tamanho" de seus homens, se gabando, assim como homens boçais, da quantidade de vezes que gozam.

Músicas nas festas das escolas e nos aniversários de crianças cantam a banalidade dos gestos sexuais, fixando os olhos vazados das meninas no desejo de crescer o bastante para serem fáceis. Programas infantis ensinam a vulgaridade como forma de liberdade corporal na frente das câmeras.

Programas "teens" de TV elevam ao grau de guru quem transa aos dez anos, contanto que use camisinha. Pedagogas, sob o signo de preparar para a vida, barateiam os corpos das meninas ensinando sexo fácil como se fosse sexo seguro.
Salvem as baleias, as focas, o verde, o planeta, os "baby monkeys", mas transem fácil.

A forma como o aborto é tratado (todo mundo é a favor, menos os "tolinhos") é prova de como o sexo e as meninas são artigo vendido às dúzias nas feiras de periferia. É isso aí: mulher fácil é mulher barata.

Tem mais mulher do que homem no mundo (não estou seguro dessa informação, mas todo mundo diz que sim, principalmente as mulheres solitárias) e, com a liberação delas, o preço ainda caiu mais. A melhor coisa que existe para um cara que quer uma mulher barata é que ela pague suas contas.

Alguém precisa parar de mentir e avisar para essas meninas que a vida é uma chacina cotidiana. Que o envelhecimento chega sem que você espere, que o mundo fica repetitivo com o tempo, que as pessoas ficam previsíveis e que sexo fácil é sempre sexo sem amor. Avisem a elas que o amor é raro, difícil, caro, duro de encontrar, morre fácil, porque é sempre mal-adaptado num ambiente mais afeito a baratas do que a seres humanos.

Enfim, que uma das lutas contínuas da civilização é contra a indiferença porque homens e mulheres não são especiais e existem às dúzias por aí, a gargalhadas, como bonecos de cera sem graça.


Postado originalmente na Folha de São Paulo por Luiz Felipe Pondé em 3 de março de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Como a Religião e a Ciência se fundem aos olhos de um gênio

Com a explosiva difusão da cultura cristã/protestante, novos incansáveis debates tomam lugar entre seus entusiastas, especialmente quando ideologias e cosmovisões físicas e metafísicas entram em pauta. Geralmente o maior ponto de impasse nesse tipo de questionamento é a exclusão da ciência pela religião e vice-versa.

Acontece que todo aquele que nega a existência de um plano maior, ou mesmo aquele que só crê no imaterial, fecham sua mente e compreensão para possibilidades e realidades sobremaneira importantes, acorrentando o infinito à simples compreensão empírica, ou fechando as janelas da alma para o divino, pelo simples fato de sê-lo muitas vezes inexplicável e imensurável.

Muito se diz sobre o equilíbrio entre dois pontos, sobre o perigo dos extremos, tanto para o solipsismo puro quanto para o imanentismo totalitário. O que é de se surpreender é que tantos deixem essa sensata posição de lado na hora de abraçar inteiramente a religião ou a ciência. Mas não é isso que acontece em algumas das mentes mais brilhantes que por esta terra caminharam. Cada dia mais me soa razoável que a sinergia entre os dois campos é a melhor forma para evitar o disperdício da entropia intelectual.

É nesse sentido que transcrevo aqui uma parte do livro "Einstein - O Enigma do Universo", escrito pelo filósofo e educado brasileiro Humberto Rohden, que teve o privilégio de conviver com o gênio alemão e ter abordado em sua obra um dos aspectos mais misteriosos da personalidade de Einstein: a intuição cósmica e os processos heurísticos usados pelo cientista para descobrir as leis fundamentais do Universo. Aqui vemos um ser humano fantástico, que vai muito além do renomado e brilhante cientista que o mundo conhece em diversas proporções, mas um ser humano com consciência espiritual, que apesar de ser considerado ateu por muitos teólogos, demonstra uma incomum sensibilidade e consciência criadora:






"Inúmeras vezes foi Einstein solicitado por pessoas de todas as classes para dar uma síntese compreensiva do que ele entendia por Relatividade - e nenhuma vez Einstein explicou a ninguém o que era Relatividade.

O que ele afirma sempre de novo em seus livros e em cartas é que a Relatividade não é objeto de análise intelectual, e sim intuição cósmica - e sobre intuição, ninguém pode falar sem entrar em conflito consigo mesmo. Paulo de Tarso diria que a intuição são os árreta rémata, os "ditos indizíveis".

Assim, como o místico, que sabe o que é Deus, não pode falar de Deus, do mesmo modo o matemático, que sabe o que é Realidade, não pode falar sobre Realidade aos que só pensam e falam em termos de relatividade.

A Realidade é o Absoluto - o Abstrato - e falar só se pode de facticidades relativas concretas. As facticidades relativas existem - mas a Relatividade absoluta é. O Ser não é objeto dos sentidos empíricos e do intelecto analítico.

A Realidade, quando pensada, é adulterada. Quando falada, é duas vezes adulterada. E, quando escrita, é três vezes adulterada.

Infelizmente, o homem tem de pensar, de falar, e até de escrever - que são males necessários.
A verdade genuína não pode ser pensada, falada, escrita - ela é eternamente silenciosa, anônima, amorfa, incolor.

Se Deus não fosse a verdade absoluta não seria ele o Eterno Silencioso, o Anônimo, o Amorfo, o Incolor.

Quanto mais o homem se aproxima de Deus, mais silencioso se torna, mais anônimo, mais amorfo, mais incolor.

Tudo que se pode pensar, que tem nome, forma e cor, pertence ao mundo dos relativos, mas não ao mundo do Absoluto.

Tudo o que é relativo é como um reflexo no espelho bidimensional de tempo e espaço. O Absoluto está fora de tempo e espaço, no Eterno e no Infinito.

O nosso ego-empírico só conhece as facticidades relativas no espelho ilusório de tempo e espaço - nada sobre a Realidade verdadeira.

O nosso Eu cósmico sabe da Realidade, e a saboreia - mas não a pode pensar nem dizer.
A Realidade é impensável e indizível.

O homem da silenciosa Realidade é o único homem realmente feliz. E, por vezes, é tão grande a sua felicidade que ele resolve pensar, falar e até escrever, porque toda a plenitude transborda irresistivelmente.

E esse transbordamento da plenitude beneficia os outros - suposto que esses tenham receptividade para receber algumas gotas daquela plenitude."

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Vaidade de vaidades; é tudo vaidade...


QUANDO A VAIDADE, A AMARGURA E A PLATÉIA ENLOUQUECEM ATÉ GENTE COM POTENCIAL PARA O BEM...




"Minha mulher estava lendo uma revista evangélica que me é enviada e o fazia em estado de perplexidade ante o artigo de uma pessoa considerada séria, e que dizia que apesar de o Neo-Pentecostalismo ser a expressão mais completa da total ausência do Evangelho, todavia, dizia ela, tem-se de admitir que tais movimentos têm promovido, com suas teologias de sucesso e prosperidades, um espírito de ascensão social, o qual, é inegavelmente positivo, segundo ela; para depois concluir que quem se opõe a tais coisas, sejam pessoa criticas, negativas e sem Graça e Misericórdia.

Então Adriana me leu o texto da revista...

Ao concluir disse mais ou menos o seguinte [com palavras e modos dela, que não são fáceis para mim o reproduzir com exatidão]:

Mas esta pessoa aqui não é séria?... Como ela pode estar tão vendida assim?... O que ela está fazendo é um desserviço ao Evangelho... Ela está jogando pra platéia... Está corrompendo a consciência dos frágeis... Ou não entendeu o Evangelho ou está em engano...”

Achei patético também... Deu-me pena...; mas depois muita compaixão.

O que a pessoa dizia era que se o fator sócio-econômico mostrar indicadores de ascensão social, então, mesmo que seja algo feito em nome de Jesus, mas que seja a própria antítese do Evangelho, pelo fenômeno do estimulo e resultado de sucesso no mercado [...]; sim, por tais realizações o anti-evangelho estaria justificado [...]; enquanto os que acusam tais coisas de serem os piores inimigos da Cruz de Cristo justamente por falarem em nome de Jesus aquilo de Jesus nada tem, são vistos como os negativos e sem Graça de Deus na vida.

O que a pessoa de fato dizia, simplificando, é que o critério mundano de ascensão sócio-econômico, tem supremacia em importância sobre o Evangelho; e, com isto, afirma também que o eixo de seu amor mudou da eternidade para o mundo, para o mercado, para Babilônia, em sutil abandono do amor pela Nova Jerusalém; ou seja: deixou de dizer seja feita a Tua vontade assim na Terra como no céu; e passou a dizer: Que o padrão da Nova Zelândia e do 1º mundo nos alcancem a qualquer preço, ainda que seja pela via de um estelionato para com Jesus e o Evangelho.

Ou seja: aquilo que é importante diante dos homens e que Jesus disse que é abominação diante de Deus, para ela passou a ser o critério superior para determinar se algo é positivo ou negativo, sem entender que a inversão de tal valor corrompe o ser, arranca toda esperança da glória de Deus do coração, e, literalmente [...] enterra a pessoa no pó da terra; e, sem que ela note, tal hiper-valorização dos fenômenos terrenos, acabam por expulsar os últimos resíduos de esperança do coração...

Um dia a pessoa acorda e já não é...

E mais ainda sobre o artigo da revista cristã:...tudo o que a pessoa dizia era em nome do Cristianismo, e nunca em nome de Jesus; sim, nunca em nome do Evangelho; e por uma razão: lá no fundo ela sabe que é impossível.

A gente pode nascer filho de Deus, e, de repente, sem sentir, virar neto do 13º Apóstolo, o Pai do Cristianismo, o Vovô Imperador Constantino. Esse é o poder corruptor da Religião [...]; e que eu conheço muito bem; com certeza bem mais do que ela; e há muito mais tempo e em intensidade e profundidade que ela não sonha sequer avaliar...

Com muito desejo de que a verdade não gere amargura, mas quebrantamento sincero [...] — desejo a tal pessoa e a todo aquele que advogue a mesma causa irreconciliável com Jesus e com o Evangelho, que a Palavra da Vida prevaleça sobre a Vida sem Palavra, mas apenas com moralismos, de um lado, e, de outro, com um desejo imoral de ver positividade onde Jesus só veria miséria, é que me despeço com amor Nele, "

Caio

10 de novembro de 2009

Lago Norte

Brasília

DF

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

And You & I



Olhar, atenção, conversa, carona, pulseira, perfume, desculpa, contato, reunião, admiração, atração, confusão, resolução, prioridade, expectativa, viagem, avós, naturalidade, mudanças, afeto, compatibilidade, alegria, estrelas, frio, cobertas, distância, saudade, aniversário, surpresa, felicidade, descobertas, pizza, sala, febre, pedido, começo, paz, sabedoria, elogio, cumplicidade, respeito, chocolate, horários, culto, filme, livros, sono, música, cabelo, alpino, almofada, cheiro, carinho, marcas, sensibilidade, saudade, intimidade, barriga, cócegas, apertar, sentir, família, cachorro, orgulho, sorriso, unidade, acampamento, pescaria, fogueira, amizades, humildade, serenidade, aliança, escolha, consagração, lealdade, abraço, praça, palmeiras, casa, jardim, sonhos, planos, estudos, fonte, molhar, torre, mirante, passeio, lua, dúvida, evento, decisão, admiração, contato, respirar, planos, presentes, meses, esperança, distância, vazio, oração, reflexão, palavras, sentimentos, lágrimas, falta, futuro, Deus, mudança, atitude, vontade, tempo, fé...







And you and I climb over the sea to the valley,
And you and I reach out for reasons to call on.........

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Modernidade, talento e genialidade







É incrível como alguns dias de abstenção intelectual podem transformar significativamente nossos processos mentais, condutas e pensamentos. Ao mudar drasticamente de rotina, os livros reflexivos deixaram de me fazer companhia por algum tempo, Pouco tempo se for considerar o período em que andávamos juntos, e com essa mudança, uma floresta com tantos frutos de diversas cores, sabores, fragrâncias e texturas rapidamente deu lugar à aridez do comum, a rasura do simples, ao horror do pensamento massificado.

Ao bem aproveitar poucos minutos nessa tarde, ao ler duas ou três páginas de algo rico, volto a ter inspiração e qualquer brilho interior para me comunicar, absorvendo rapida e satisfatoriamente aquela porção como grãos de areia retém instantaneamente toda e qualquer porção de água que perto deles se situe.

Dessa vez, maravilhado pela simplicidade e profundidade de um relato, vejo mais verdade que há tantos anos busco, cultivo e repasso se materializando em meu âmago, onde contornos tênues mas impecavelmente desenhados constroem um conceito já conhecido a priori, mas nunca antes brindado com tal maestria.

Basta um pouco de observação e oportunidade para percebermos algumas qualidades que parecem sempre acompanhar grandes mentes, grandes exemplos. Quando buscamos no passado fontes de inspiração, alguns nomes e fatos históricos prontamente nos invadem o pensamento. É curioso o fato de que ao remeter nossa avaliação em face da vida de grandes exemplos, temos a imagem daquela vida sempre acompanhada por paz, sabedoria, tranquilidade, sonhos e realizações, e também humildade. Aqueles que amam o conhecimento e a temperança parecem pender naturalmente para uma personalidade, ou que seja, postura adquirida, tantas vezes minimalista, abstrata, com preocupações, temores e medos diametralmente opostas, ou mesmo estranhas ao que vemos incansavelmente nos cercar, através de pessoas comuns, no dia-a-dia.

Serão os tempos atuais tão perversos a ponto de ter extirpado esse perfil do nosso meio, terá acontecido algum tipo de seleção natural às avessas, a ponto de que tenham permanecido somente pessoas pequenas, com aspirações igualmente medíocres e feitos ainda piores, como constantemente é noticiado para os quatro cantos? Não. A verdade é que as grandes mentes, as grandes vidas sempre foram e sempre serão exceções notáveis. Seu estilo de vida, seus valores, seus focos e processos mentais se diferenciam quase que extraterrenamente do que é tipo como ordinário pela imensa massa de pessoas cuja mente já foi reduzida e aprisionada pela vida de conforto, pelas facilidades materiais e principalmente pela Sociedade do Espetáculo.

O que dá espaço, e motiva comportamentos como a autopromoção exacerbada, o que enseja em exageros, mentiras, falsas propagandas de alegria, realização, enfim; tudo o que é metralhado incessantemente nas mentes daqueles de todos que nela vivem, na maioria das vezes, sem possuir condição alguma de discernir sobre a procedência e as intenções sorrateiramente inoculadas no material que é jogado na cara de qualquer pessoa a todo instante.

Mas a questão é que todas essas premissas vão contra tudo o que se pode tirar de maior valor das vidas que mais dizemos louvar e ter como exemplo. Os maiores gênios da humanidade foram pessoas extremamente reservadas, racionais, conscientes de seu papel e seu tamanho diante do Universo; ou seja, quase nada. De forma que a genialidade é acompanhada da consciência do pouco que se pode atingir no todo, da imensidão de coisas, ideias e possibilidades que compõem o Universo, sendo ele, por mais brilhante que possa parecer, ainda ínfimo, diante de toda a Criação.

Assim, em uma mente cheia de si, ou entorpecida por preocupações mínimas, ou que é satisfeita por mimos sociais, coisas passageiras e insignificantes como prazeres momentâneos, realização de meros desejos carnais e coisas do tipo, não pode haver genialidade alguma; no máximo talento. A consciência criadora jamais o seria, se estivesse ocupada com pormenores, ou consigo mesma. Toda a criação é externa, para fora, para o outro.

Ademais, durante a longa estrada do conhecimento, da sabedoria e da prudência, qualquer indivíduo acaba por chegar no ponto de reflexão mais profunda, que o leva para os sentidos mais primitivos, para o contato com a natureza, para o questionamento sobre a origem, sobre coisas que já se tornaram por demasiado simples, mas que na verdade acabaram por dar lugar a outras que podem não parecer simples, mas certamente o são, simples e completamente desnecessárias para a completude do ser.

Uma mente sadia e bem alimentada não teme sua própria companhia; não necessita de subterfúgios para simular estados alterados de consciência, não busca a confusão, a balbúrdia, ou qualquer outro estago orgiástico; embora tenha condições plenas de se inserir nessas situações sem que sua essência ou componentes básicos sejam alterados. Mas quanto a isso, remeto ao início do post, ao dizer que a mente é como uma esponja que absorve indistintamente tudo que é colocado a seu alcance, sem filtrar o que é bom ou mal, desejável ou digno de repúdio, ela apenas absorve o que permitimos que esteja em seu contato. O caos total só não se apodera da maioria das mentes devido a barreiras morais e éticas latentes, ou convenções e repressões sociais que visam a proteção do eu, do ego e da reputação egoística, e não por falta de matéria negra por ela vagando.

Em suma, uma mente saudável é aquela que busca alimento puro, sadio, a ponto de ter sua essência alterada para o que é digno, louvável e honrado; por mais subjetivos que esses conceitos possam ser. A base espiritual ou filosófica de cada mente é o que os definem. Mas a perfidez do conteúdo que acompanha cada mínima influência trazida por um estilo de vida hedonista, utilitarista e egocêntrico que é quase que a lei atualmente, não pode ser ignorada de forma alguma, pois como pude perceber empiricamente, mente sadia ou espírito forte algum podem resistir ao constante ataque e distorção dos conceitos basilares do equilíbrio e da saúde mental.

Não sejamos como aqueles tantos que empenham sua vida, bem mais precioso, na construção de castelos de areia; que são levados por ondas, tendências passageiras, ou mesmo que fiquem ali intocados, serão certamente desmanchados pelo tempo, devido à fraqueza de sua fundação, e de seu material de construção. A vida é um dom por demais precioso para ser desperdiçada dessa forma.







Seja a mudança que você quer ver no mundo”
Mahatma Gandhi





quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Ministério Contra a Saúde


Se ninguém advertiu até agora ao prezado leitor, advirto-lhe eu: ministérios podem fazer muito mal à saúde. Pelo menos à saúde mental. Se não acredita, examine comigo o anúncio do Ministério da Saúde em que um jovem gay, abandonado pelo parceiro, é reconfortado pela amorosa família que lhe augura o breve advento de um namorado melhor, no tom exatamente de quem pintasse ante os olhos esperançosos da virgenzinha casadoura a imagem de sonho de seu príncipe encantado.

Essa breve lição de moral politicamente correta condensa, em poucos segundos, toda uma constelação de mensagens implícitas, cuja descompactação nos levará às mais surpreendentes descobertas.

Desde logo, os valores afetivos e princípios morais da unidade familiar monogâmica e estável, criada e consolidada a duras penas ao longo de milênios de educação judaico-cristã, aparecem ali como símbolos legitimadores de um tipo de relação que renega, de maneira frontal e ostensiva, esses mesmos valores e princípios. Por mais que se pretenda tergiversá-las, as condenações da Bíblia ao homem que usa outro homem como mulher são incontornáveis, e é precisamente em louvor desse uso que o anúncio apela ao prestígio de um modelo de família que é, também incontornavelmente, criação histórica e expressão social do ensinamento bíblico.

Trata-se, portanto, de um exemplar característico daquilo que Pavlov denominava estimulação paradoxal: a mente é aí convidada a ir ao mesmo tempo em duas direções que se negam e se anulam reciprocamente.

A diferença entre a estimulação paradoxal e a exposição franca de um paradoxo é que, na primeira, a contradição não vem apresentada como tal, mas disfarçada de pura identidade lógica, óbvia, tranqüila e improblemática, sendo a percepção da incongruência relegada para a penumbra do inconsciente.

Mesmo que os telespectadores sintam algum desconforto consciente ante o anúncio, pouquíssimos serão capazes de desfazer o angu psicológico e libertar-se do seu efeito por meio da verbalização explícita do paradoxo nele embutido. Muitos cairão no engodo de discutir o seu explícito conteúdo pró-homossexual, sem se dar conta de que nele há algo de muito mais grave que isso.

O resultado da estimulação paradoxal repetida, segundo Pavlov, é a ruptura das cadeias associativas em que se baseia o raciocínio. Essa ruptura leva a um desconforto psíquico do qual, após certo número de repetições, o cérebro aprenderá a buscar alívio mediante o mergulho num estado de paralisia do juízo crítico, de estupor da consciência. Acossada e inerme, incapaz de reação eficiente, a vítima tentará ajustar-se ao novo estado de coisas pelo recurso desesperado à inversão mecânica de suas reações habituais. Cães passarão a morder o dono e a lamber as mãos de estranhos. Seres humanos passarão a amar o que odiavam e a odiar o que amavam.

Essa mudança pode parecer temporária, mas na verdade não é assim. Experiências baseadas na teoria da “dissonância cognitiva”, do psiquiatra Leon Festinger, demonstraram que qualquer pessoa, induzida a adotar, mesmo temporariamente, uma conduta hostil a seus valores e princípios habituais, acabará em geral mudando retroativamente de valores e princípios, não mediante uma reflexão crítica séria, é claro, mas por uma grosseira acomodação irracional destinada a aliviar o sofrimento da incongruência mal conscientizada.

O modus operandi do anúncio é, portanto, o de uma característica manipulação de reações subconscientes: inocular na psique do espectador um desconforto neurotizante que o forçará a mudar de valores e princípios sem ter tido sequer o tempo de refletir sobre o assunto. O dano psíquico decorrente da brincadeira pouco importa aos planejadores da mutação. A dissonância cognitiva não reconhecida nem tratada como tal, mas contornada por adaptação inconsciente e racionalizações, acabará por minar toda a unidade da psique, rebaixando o nível de consciência do indivíduo, sujeitando-o a novos conflitos neuróticos e tornando-o vulnerável a quaisquer manipulações subseqüentes, principalmente vindas do mesmo agente estimulador.

O anúncio está, portanto, destinado a produzir entre os telespectadores as mais espetaculares mudanças de conduta, de sentimentos, de discurso — mas nada disso através de discussão democrática, de persuasão racional, e sim por meio da manipulação perversa que os transformará em fantoches nas mãos dos engenheiros comportamentais do Ministério da Saúde. A esta altura, o efeito em alguns milhões de brasileiros já se tornou praticamente irreversível.

Que semelhante violência seja feita em defesa da homossexualidade ou de qualquer outra coisa, pouco importa. Não é esse o ponto. A conduta homossexual poderia sem dificuldade ser amparada juridicamente com base no respeito à privacidade das opções individuais, um direito elementar. Mas legitimá-la por meio de sua identificação artificiosa com as relações familiares tradicionais não é defender nem respeitar direito nenhum: é destruir de um só golpe toda a ordem racional em que se assenta a noção mesma de direito, é paralisar todas as inteligências pelo uso maciço da estimulação paradoxal e pela institucionalização da dissonância cognitiva. É reduzir as massas à mais dócil imbecilidade e instaurar a ditadura da engenharia comportamental. Falar em “cidadania”, nessas condições, é uma pilhéria macabra: a escravidão psicológica é absolutamente incompatível com o livre exercício do julgamento racional, sem o qual não existe cidadania, nem liberdade, nem democracia.


Olavo de Carvalho

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Tyler Durden's Excerpts

Trabalhar, consumir, dormir, insônia, aos poucos percebendo que sua vida não passa de uma cópia, de uma cópia, de uma cópia... O médico sugere que visite grupos de apoio para portadores de câncer de testículo. Procura grupos de portadores de outros tipos de câncer, se tornando um viciado, até que um certo dia se depara com Marla, e a mentira de Marla reflete sua mentira. O apartamento explode inesperadamente, com todas as mobílias arrumadas, os discos em seus lugares, a coleção de louça importada, ... Aparece Tyler Durden, com propostas de terrorismo poético, começa o Clube da Luta, a se encarar a vida como algo a ser experimentado com brigas, "quanto você conhece de si mesmo se nunca entrou numa briga?". As vivências vão se entrelaçando, conduzindo e potencializando um processo esquizofrênico. Trabalhamos para produzir o que não consumimos, consumimos o que não é necessário, guardando em nossas vidas um estoque de coisas que não utilizamos, e acabamos nunca ficando satisfeitos.. Tudo o que o sistema precisa para funcionar são pessoas para produzir de um lado e pessoas para consumir de outro. E o que é pior, somos nós os que produzem e consomem, servindo de alimentação dessa condição. "Você não é seu emprego ou o dinheiro que possui", "as coisas que você possui acabam te possuindo", "essa é a sua vida e está acabando a cada minuto". “A propaganda nos faz correr atrás de coisas e a trabalhar em empregos que odiamos para comprar porcarias de que não precisamos". Por que consumimos besteiras que as propagandas nos vendem? Por que nos submetemos a trabalhar em serviços que não gostamos? Vamos morrer um dia e nossa vida terá sido a mesma se não mudar a maneira de encarar as relações.. depois de morrer não teremos mais nada de nada. "Você nem quer saber onde moro, o que sinto, como alimento meus filhos ou como vou pagar o médico se ficar doente”. “Fomos criados pela televisão para acreditar que um dia seríamos ricos, estrelas de cinema e do rock, mas não seremos, e estamos aos poucos aprendendo isso".



segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O inferno brasileiro

Honra ou vergonha? Orgulho ou pena?

Fala-se de um momento histórico em que conceitos diametralmente opostos como esses se confundem de maneira homogênea na mente de uma sociedade perdida, confusa, mergulhada em profundezas sem sequer perceber, nadando em texturas que sequer podem discernir. Os pólos que por séculos nortearam o bom-senso geral se encontram num choque mais cataclísmico que o de placas tectônicas; princípios basilares são violentamente consumidos pelo buraco negro da relativização. E nesse terremoto muito mais do que vidas estão sendo dizimadas, mas a própria essência do ser, a primazia da construção interior humana vem sendo varrida impiedosamente enquanto os mais bravos observam o que ainda resta de valor escorregar rapidamente por seus dedos; e ainda faltam condições para que as mãos se fechem e se juntem a rostos iluminados parcialmente por um, quem sabe, último lampejo de consciência criadora.



'A toda hora aparecem pastores, padres, sobretudo jornalistas e políticos – sim, jornalistas e políticos, essas personificações supremas da moralidade – clamando contra “a degradação dos costumes”. O próprio termo completamente deslocado que empregam para nomear o mal prova que são parte dele. “Degradação dos costumes” é uma expressão quantitativa, escalar: supõe a vigência permanente de uma escala contra a qual se mede o decréscimo da obediência rotineira aos valores que ela quantifica.

O que se passa no Brasil não é uma “degradação dos costumes”: é a destruição premeditada de todas as escalas, a inversão sistemática de todos os valores.

Os costumes degradam-se quando a população já não consegue imitar nem de longe os modelos melhores de conduta que a História consagrou e que, ante o olhar de cada geração, se reencarnam de novo e de novo nas figuras das personalidades admiráveis, dos sábios, dos heróis e dos santos.

Quando, ao contrário, todas as personalidades admiráveis desapareceram ou foram postas para escanteio, e em seu lugar se colocam simulacros grotescos ou inversões caricaturais, o problema já não é a desobediência, mesmo generalizada, a valores que todos continuam reconhecendo da boca para fora; é, ao contrário, a obediência a modelos de malícia, perversidade e covardia que se impuseram, pela força da propaganda e da mentira, como as únicas encarnações possíveis do meritório e do admirável.

Quanto mais alto esses personagens sobem na hierarquia social, mais esfumada e distante vai ficando, até desaparecer por completo, a escala de valores que permitiria julgá-los e condená-los; e mais e mais eles próprios se consagram como unidades de medida de uma nova escala, monstruosamente invertida, que em breve passa a ser a única. Daí por diante, quem quer que não a siga e cultue dificilmente poderá evitar a sensação de marginalidade e isolamento que é, nesse quadro, o sucedâneo perfeito do sentimento de culpa. Calou-se, na alma de cada cidadão, a voz da consciência que, na escura solidão da sua alma, lhe trazia a lembrança amarga de seus delitos e de seus vícios. Em lugar dela, desenvolve-se uma hipersensibilidade epidérmica à opinião dos outros, ao julgamento do grupo, ao senso das conveniências aparentes.

Preso na trama virtual dos olhares de suspeita, cada um vive agora em estado de sobressalto permanente, obsediado, ao mesmo tempo, pela compulsão de exibir equilíbrio, tranqüilidade e polidez para não se tornar o próximo alvo de desprezo. A essa altura, cada um se dispõe a renegar ideais, amizades, lealdades, admirações, promessas, ao primeiro sinal de que podem condená-lo a um ostracismo psíquico que se anuncia tanto mais insuportável quanto mais tácito, implícito e não reconhecido como tal.

Há uma diferença enorme entre um “estado de medo” e uma “atmosfera de medo”. O primeiro é patente, é público, todos falam dele e, não raro, encontram um meio de enfrentá-lo. A segunda é difusa, nebulosa, esquiva, e alimenta-se da sua própria negação, na medida em que acusar sua presença é, já, candidatar-se à rejeição, à perda dos laços sociais, ao isolamento enlouquecedor.

Nessa atmosfera, a única maneira de evitar o castigo ante cuja iminência se treme de pavor é negar que ele exista, e, com um sorriso postiço de serenidade olímpica, ajudar a comunidade a aplicá-lo a imprudentes terceiros que tenham ousado notar, em voz alta, a presença do mal.

Não digo que todos os brasileiros tenham se deixado submergir nessa atmosfera. Mas pelo menos as “classes falantes”, se é possível diagnosticá-las pelo que publicam na mídia, já têm sua consciência moral tão deformada que até mesmo suas ocasionais e debilíssimas efusões de revolta contra o mal vêm contaminadas do mesmo mal. Por exemplo, o fato de que clamem contra desvios de dinheiro público com muito mais veemência do que contra o massacre anual de 50 mil brasileiros (quando chegam a dar-lhe alguma atenção) prova, acima de qualquer possibilidade de dúvida, que por trás do seu ódio a políticos corruptos não há uma só gota de sentimento moral genuíno, apenas a macaqueação de estereótipos moralistas que ficam bem na fita. E que ainda continuem discutindo “se” o partido governante tem parceria com as Farc, depois de tantas provas documentais jamais contestadas, mostra que estão infinitamente menos interessadas em averiguar os fatos do que em apagar as pistas da sua longa e obstinada recusa de averiguá-los. Recusa que as tornou tão culpadas quanto aqueles a quem, agora, relutam em acusar porque sentem que acusá-los seria acusar-se a si próprias. Quando, por indolência seguida de covardia, os inocentes se tornam cúmplices ex post facto, já não sobra ninguém para julgar o crime: todos, agora, estão unidos na busca comum de um subterfúgio anestésico que o suprima da memória geral.

Não, não se trata de “degradação dos costumes”, como nos EUA, na França, na Espanha ou em tantos outros países: Trata-se, isto sim, da perda completa do senso moral, o que faz deste país uma bela imagem do inferno. No inferno não há degradação, porque não há a presença do bem para graduá-la.'

...


Olavo de Carvalho


video

sábado, 18 de setembro de 2010

O pacato tem vida longa

'Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.' Mt. 11 - 29

'Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.' Mt.5 - 5




Para viver, deixe viver. As pessoas pacíficas não vivem apenas, reinam. Ouça e veja, mas mantenha-se calado. Um dia sem tensões significa uma noite repousante. Viver muito e com gosto é viver duplamente: é fruto da paz. Tem tudo aquele que não se preocupa com aquilo que não importa. Não há bobagem maior do que levar tudo muito à sério. Manter-se aberto àquilo que não interessa é tão tolo quanto não se envolver com aquilo que interessa.

Não se envolver em complicações.Eis uma das primordiais preocupações da prudência. É longo o caminho a percorrer de um extremo a outro, e os prudentes permanecem na área central da sensatez. É decisão amadurecida romper tal estado, pois é mais fácil tirar o corpo do perigo do que sair-se bem dele. As situações perigosas colocam nosso bom senso na berlinda, e é mais seguro evitá-las por completo. Uma complicação traz outra maior, conduzindo-nos à beira do desastre. Alguns são precipitados, por temperamento ou por nacionalidade, e é com rapidez que se envolvem em situações perigosas. Mas aquele que caminha à luz da razão avalia a situação e percebe que há mais valor em evitar o perigo do que em vencê-lo. Vendo que já existe um tolo imprudente, evita ser-lhe segundo.



Baltasar Gracián

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Céu e Inferno


“Um dia um aprendiz perguntou a seu mestre qual a diferença entre o céu e o inferno, e o mestre respondeu:

- Amado aprendiz, o inferno é como um grupo de pessoas sentadas ao redor de um monte de arroz delicioso, cada uma destas pessoas com talheres muito longo e por este motivo, estas pessoas não conseguem colocar o arroz na própria boca, por seu egoísmo (falta de compreensão!) morrem de fome.

- Já o céu, é um outro grupo de pessoas também sentadas ao redor de um monte de arroz, também com talheres muito longo, só que cada uma destas pessoas alimenta a outra, e por este motivo todos ficam satisfeitos e felizes.”


Eu sempre gostei de definições simples para questões complicadas; sobretudo em temas polêmicos e controversos como interpretações religiosas.

É verdade que não saberemos o real significado de dois lugares tão paradoxais e etéreos em vida, mas isso me fez questionar a possibilidade da existência de um céu e um inferno mesmo no mundo material.

Ora observando, ora participando, ora protagonizando episódios que se repetem como ciclos na vida de tantas pessoas, vejo como a mesma situação ou experiência pode ser encarada com conotações completamente diferentes por quem as vive direta ou indiretamente, abrindo espaço para a compreensão da noção a piori de céu, inferno e quem sabe até um purgatório físico/mental.

Sempre que somos colocados em situações de extrema carga emocional/sentimental somos levados a nossos extremos de conduta, de comportamento, permitindo que nossa consciência busque no âmago do nosso ser, forças, respostas, conformismo, ou mesmo um estado débil de contentamento (estado esse mais ligado ao purgatório físico). A diferença me parece estar ligada à forma como cada indivíduo encara essas experiências extremas, sendo fácil detectar as pessoas que optam por levar situações de forma mais realista, outras de forma mais emotiva, e outras de forma indiferente.

Cumpre frisar que dentro dessa análise não estou sequer analisando a possibilidade de absorção de conhecimento, bagagem de vida ou mesmo aplicação de situações traumáticas anteriores na resiliência dos fatos que servem de embasamento empírico para o que desenvolvo nesse argumento; trato aqui, apenas de uma escolha quase que instintiva de maneiras diversas de encarar as desventuras ou exacerbados sucessos a que estamos sujeitos ao longo de nossa jornada nesse imenso jardim do Éden, hoje com tantas e tantas árvores de frutos proibidos cada vez mais frondosas e apetitosas aos nossos olhos, que já se identificam com tais frutos não somente com a curiosidade da primeira mulher que o provou, mas com o temível conhecimento do bem e do mal, o tornando não somente a refeição principal do que nos afasta do paraíso, mas como uma doce e fatal sobremesa que chega ao estômago envolta em chamas furiosas.

É sempre mais convidativo à natureza acomodada e territorialista humana optar por levar tudo para o lado pessoal, principalmente quando estamos no pólo socialmente vitimizado da contenda, nos tornando convenientemente dignos de compaixão geral e opinião pública favorável, principalmente no contexto da sociedade brasileira, marcada por características mais cálidas, amistosas, abertas, para não dizer emocionais, frívolas e orgiásticas. O grande problema é que esse tipo de atitude, apesar de abrasadora para egos e consciências, é o que torna o homem para o lado do inferno em vida, trazendo para si perturbações e inquietudes infindáveis e sucessivas, ao contrário daqueles que aprenderam a adotar uma postura mais fria, madura e realista a despeito de eventualidades que possam atingi-lo pessoalmente (uma vez que é notoriamente fácil reagir com frieza, altivez e aparente maturidade diante de situações que não nos afetam interior, fisica ou financeiramente).

No meio do caminho estão aqueles que com sucesso amortizaram seus egos, vontades e desejos, ainda que não completamente, mas o suficiente para desfrutarem de um nível satisfatório de desapego, superação e indiferença quando colocados diante de medos, perdas e revezes, apenas sobrepondo-se a todo tipo de contrariedade, contudo sem se polarizar e transformar aquilo numa oportunidade, lição ou plataforma de transformação em algo positivo ou desejável. Geralmente essas pessoas são menos atormentadas em vida, porém possuem menos propensão para assimilar grandes alegrias e estados de prazer, uma vez que resignaram-se de tais sentimentos, bem como dos negativos outrora mencionados.

E por fim chegamos ao conhecimento dos querubins e serafins tácteis, aqueles que não só saíram do estado de penúria terrena, mas também impuseram silêncio aos desejos rasteiros humanos, vencendo a si mesmos, mas ainda foram capazes de fazer disso algo divino; que passa da água e do metal, surpassa o vinho e o ouro, atingindo um estado nobre de vida, como um processador de espinhos que fabrica pétalas perfumadas de rosas, que embora possuam espinhos para ensinar o preço de tudo na vida, inundam por onde passam com beleza, perfume e suavidade. São os esclarecidos de corpo, alma e espírito, que pouco valor dão a si mesmo, não se permitem identificar com a pequenez e o vazio terrenos, mas se encontram conscientemente num plano elevado de existência, como um corpo que vaga pelo mundo material, mas cujos olhos e espírito já estão no pós-morte, o paraíso.

Como tudo na vida, a escolha é particular, o caminho estreita-se à medida que subimos nossas pretensões. Mas como aquele que esvaziou-se de si voluntariamente sem carregar culpa alguma sempre estará sob o domínio das três áreas que parecem nos cercar antes mesmo da morte física. Que o sol brilhe fulgorosamente sob a face dos que para cima olham, enchendo suas vidas com o calor, a energia e a força necessárias para que alvas asas se abram por trás dos olhos dos que sonham e lutam.







"O que podemos saber é muito pouco e, se esquecemos o quanto nos é impossível saber, tornamo-nos insensíveis a muitas coisas sumamente importantes" Bertrand Russel

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O Que Sobrou da Religião



'Se há neste mundo um fato bem comprovado, é a percepção extra-sensorial durante o estado de morte clínica. Um corpo inerte, sem batimentos cardíacos ou qualquer atividade cerebral, desperta de repente e descreve, com riqueza de detalhes, o que se passava durante o seu transe, não só no quarto onde jazia, mas nos outros aposentos da casa ou do hospital, que de onde estava ele não poderia ver nem se estivesse acordado, bem de saúde e com os olhos abertos. Isso já se repetiu tantas vezes, e foi atestado por tantas autoridades científicas idôneas, que só um completo ignorante na matéria pode teimar em permanecer incrédulo. Mas mesmo alguns daqueles que reconhecem a impossibilidade de negar o fato relutam em tirar a conclusão que ele impõe necessariamente: os limites da consciência humana estendem-se para além do horizonte da atividade corporal, inclusive a do cérebro. A relutância em aceitar isso mostra que o “homem moderno” – o produto da cultura que herdamos do iluminismo – se identificou com o seu corpo ao ponto de sentir-se amedrontado e ofendido ante a mera sugestão de que sua pessoa é algo mais. É evidente que aí não se trata só de uma convicção, de uma idéia, mas de um transe auto-hipnótico incapacitante, de um bloqueio efetivo da percepção.

Esse estado é implantado nas almas pela tremenda pressão anônima da coletividade, que as mantém em estado de atrofia espiritual mediante a ameaça do escárnio e o temor – imaginário, mas nem por isso menos eficiente – da exclusão. Infinitamente multiplicado e potencializado pelo sistema educacional e pela a mídia , o que um dia foi mera idéia filosófica, ou pseudofilosófica, incorpora-se nas personalidades individuais como reflexo de autodefesa e, na mesma medida, restringe a autopercepção de cada qual ao mínimo necessário para o desempenho nas tarefas imediatas da vida socio-econômica. É tudo uma profecia auto-realizável: se a evidência avassaladora da percepção extracorporal é negada, não é só porque as pessoas não acreditam nela – é porque se tornaram realmente incapazes de vivenciá-la de maneira consciente. Vivem alienadas da sua experiência psíquica mais profunda e constante, encerradas num círculo de banalidades no qual o triunfalismo “cultural” e “científico” da mídia popular infunde uma ilusão de riqueza e variedade.

O “mundo real” no qual essas pessoas acreditam viver é o dualismo galilaico-cartesiano, já totalmente desmoralizado pela física de Einstein e Planck, mas que a mídia e o sistema escolar continuam impondo à alma das multidões como verdade definitiva: tudo o que existe nesse mundo são as “coisas físicas” e, em cima delas, o “pensamento humano”, as “criações culturais”. De um lado, a realidade dura da matéria regida por leis supostamente inflexíveis, nas quais se fundamenta a autoridade universal e inquestionável da “ciência”; de outro, a pasta mole e dúctil do “subjetivo”, do arbitrário, onde toda opinião vale o mesmo. Dessa esfera “subjetiva” faz parte a “religião”, que é o direito de crer no que bem se entenda, com a condição de não proclamá-lo jamais verdade objetiva ou valor universal.

Nessas condições, o próprio exercício da religião torna-se uma caricatura grotesca. Tanto quanto o ateu, o homem religioso de hoje em dia acredita piamente na existência de uma esfera material autônoma, regida por leis próprias que a ciência enuncia, só de vez em quando rompidas pela interferência do “milagre”, do “inexplicável”, do “divino”. Por mais que a filosofia esculhambe com o “Deus dos hiatos” (aquele que só age por entre as brechas do conhecimento científico), ele é o único que restou no altar das multidões de crentes. Oficializada pelo establishment governamental, universitário e midiático, a rígida separação kantiana de “conhecimento” e “fé” tornou-se verdade de evangelho para a maioria das almas religiosas, embora ela seja, em si, perfeitamente herética à luz da doutrina católica, interpondo um abismo infranqueável entre dimensões cuja interpenetração, ao contrário, é a própria essência da concepção cristã do cosmos. É novamente a profecia auto-realizável em ação: à percepção mutilada do eu individual corresponde uma religião mutilada, e vice-versa.

Quando digo percepção mutilada, estou afirmando, taxativamente, que a imagem do eu como algo que reside no corpo ou se identifica com ele é fantástica, ilusória, doente. Ela impõe à consciência limitações que não são de maneira alguma naturais, muito menos necessárias. Todas as tradições espirituais do mundo, todas as disciplinas sapienciais começam pela constatação óbvia de que o eu não é o corpo, não “está” no corpo mas de certo modo o abrange como o supra-espacial transcende e abrange o espacial (este é balizado por certas relações matemáticas que, em si, não estão em parte alguma do espaço). Mas uma coisa é compreender isso por pura lógica, outra bem melhor é poder constatá-lo no fato vivo da percepção extra-sensorial em casos de morte clínica. Bastaria, a rigor, um único episódio desse tipo para dar por terra com a balela de que o cérebro, isto é, o corpo, “cria” a cognição, o pensamento, a consciência. Mas os episódios são milhares, e o desinteresse dos crentes por esse tipo de fenômenos (mais estudados por ateus, adeptos da New Age e budistas do que por católicos, protestantes, ou mesmo judeus crentes) denota que a mente religiosa já se conformou com um estado de existência diminuída, em que a alma supracorporal, condição fundamental do acesso a Deus, só passará a existir no outro mundo, por alguma transmutação mágica da psique corporal, em vez de constituir já nesta vida a nossa realidade pessoal mais concreta, mais substantiva e mais verdadeira, presente e atuante nos nossos atos mais mínimos como nas nossas vivências mais elevadas e sublimes.

Durante milênios cada ser humano, ao pronunciar a palavra “eu”, referia-se de maneira imediata e automática à sua alma imortal, a única que podia orar e responder por seus próprios atos ante o altar da divindade. Dessa alma, a psique corporal era uma parte e função menor, voltada ao meio material e social tão-somente, alheia a todo senso do eterno e, a rigor, incapaz de pecado ou santidade, apenas de delitos e virtudes socialmente reconhecidos. A partir do momento em que a psique corporal foi assumida como realidade autônoma, cada indivíduo só se enxerga a si mesmo como membro de uma espécie animal e como “cidadão”, amputado daquela dimensão que fundamenta o senso último de responsabilidade e cultivando, em lugar dele, o mero instinto da adequação social, adornado ou não de “moral religiosa”. Imaginem a diferença que isso faz, por exemplo, na compreensão que você tem da Bíblia: se você não a lê com sua alma imortal, talvez fosse melhor não lê-la de maneira alguma, porque a lê com a carne e não com o espírito.'


Olavo de Carvalho

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Maiores, menores e a preguiça de pensar




'A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma grande parte dos homens, depois que a natureza de há muito os libertou de uma direção estranha (naturaliter maiorennes), continuem, não obstante, de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam porque é tão fácil que os outros se constituam seus tutores. É tão cômodos ser menor! Se tenho um livro que faz as vezes de meu entendimento, um diretor espiritual que por mim tem consciência, um médico que decide por mim a respeito de minha dieta, etc., então não preciso esforçar-me eu mesmo.

Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros hão de se encarregar em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade considera difícil e também perigosa a passagem à maioridade, pois aqueles tutores de bom grado se encarregaram de supervisioná-la. Depois de terem em primeiro lugar embrutecido o seu gado doméstico e cuidadosamente preservado essas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar nem um só passo fora do caminho em que as encerraram, e tal seria para aprender a andar, mostram-lhes depois o risco que as ameaça se tentarem andar sozinhas.

Ora, na verdade não é tão grande esse perigo, já que por fim aprenderiam muito bem a andar, depois de algumas quedas. Basta um exemplo desse tipo para tornar tímido o indivíduo e atemorizá-lo, de um modo geral, em suas tentativas futuras. É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da sua minoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor por ela, por ora sendo de fato incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque jamais o permitiriam tentar assim proceder.

Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes do abuso de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem dele se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro, ainda que sobre o mais estreito fosso, pelo fato de não estar habituado a esse movimento livre. Por isso são bem poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender uma marcha segura.

Mas que um público de esclareça a si mesmo é perfeitamente possível; mais do que isso, se lhe for dada a liberdade, é quase inevitável. Pois sempre se hão de encontrar alguns indivíduos capazes de pensamento próprio, até entre os tutores estabelecidos da grande massa, que, após terem sacudido de si mesmos o jugo da menoridade, espalharão à sua volta o espírito de uma avaliação racional do próprio valor e da vocação de cada homem em pensar por conta própria. Notável nesse caso é que o público, que anteriormente foi por eles conduzido a esse jugo, obriga-os daí em diante a permanecer sob ele, quando é levado a se rebelar por alguns de seus tutores, eles próprio incapazes de qualquer esclarecimento.

Vê-se assim como é prejudicial plantar preconceitos, porque terminam por se vingar daqueles que foram seus autores ou os predecessores destes. Por isso, um público só muito morosamente pode chegar ao esclarecimento.

Uma revolução poderá talvez realizar a queda do despotismo pessoal ou da opressão ávida de lucros ou de domínios, mas jamais produzirá a verdadeira reforma do modo de pensar. Apenas novos preconceitos, assim como os velhos, servirão como cinturões para conduzir a grande massa destituída de pensamento.' ¹


¹ - Resposta à pergunta: Que é "Esclarecimento"? ("Aukflarung")
(5 de dezembro de 1783, p. 516 - Berlinische Monatschrift)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Um Coração Forte


Todo conhecedor, estudioso, ou mesmo entusiasta das ciências humanas, e até mesmo das biológicas sabe, ainda que sem dar a isso muito destaque, que o ser humano funciona através da experimentação e adaptação. Entramos em contato com diversos tipos de informações, sentimentos e situações ao longo da vida, que moldam aos poucos nossa capacidade de lidar com cada um desses eventos. Somos seres adaptativos, que se moldam ao meio em que vivem e com o tempo se acostumam à mais íngreme diferença climática, cultural ou social.

É de interesse de todos viajar, conhecer novos países, culinárias, hábitos, línguas, pessoas, etc. Procuramos ler vários livros, revistas, ver todo tipo de filme pelo menos uma vez, experimentamos pratos diferentes, ainda que a contragosto; primando sempre por nos expandir. Sabemos que a quantidade e a diversidade de informação acrescentam valor ao que somos, nos tornando mais cultos, compreensivos, sábios e inteligentes... Sem dúvida a experiência é uma das formas mais eficientes (mas não mais fáceis) de adquirir conhecimento, e todos sabemos disso.

Eu me pergunto, no entando, por que somos incrivelmente reticentes a essa ideia quando a experiência, pode nos causar qualquer tipo de dor ou sofrimento.
Pessoas decidem sem pestanejar viajar pelo mundo, ou provar alimentos exóticos, conversar com desconhecidos, mas dão tudo o que tem para fugir de qualquer situação conflituosa, ou com potencial de trazer qualquer tipo de dificuldade ou esforço exacerbado.

Mas é inegável que quando passamos por isso, após breve reflexão, fica claro que aquele tipo de situação foi a que mais contribuiu pro nosso crescimento e fortalecimento, nos dando consequentemente, mais condição de criar um ambiente desejável ao nosso redor, ou de com maior destreza evitar uma possível recorrência desse male, seja num futuro próximo ou distante.

Assim como nossos músculos, nossos sentimentos só se fortalecem ao serem esticados e relaxados por diversas vezes. Não, não faço aqui uma apologia à dor, pelo contrário. Que ela seja exceção na nossa vida, mas que como a alegria, seja encarada como algo natural, que independente de desejada ou não, acontece, mas quando vai embora, pode deixar algo mais que uma passageira sensação de prazer ou satisfação.

A vida se torna imensuravelmente deplorável quando se resume à busca de sensações agradáveis e ao distanciamento de qualquer desafio, dificuldade ou sofrimento.
É pela repetição que uma situação primordialmente apocalíptica pode se tornar uma pequena pedra no sapato de um homem, que sequer se incomoda ao chutá-la para fora de seu caminho; conferindo-lhe o luxo de apenas passar adiante dos demais que se deitaram pela estrada, exauridos pelo menor espinho cravadona planta de seus pés.

Já que aprendemos a enfrentar a tudo e a todos como traço característico-social-contemporâneo, que tal aproveitar a viagem para fazer o mesmo com o indesejado e o infortúnio?
Um coração forte é aquele que foi desmantelado e reconstruído várias vezes, que escapa de cravos e lanças como um guerreiro experiente e corajoso.
E sem dúvida a vitória em uma batalha como essa trará mais honra, excelência e força para os que ousaram combatê-la.

Me orgulho das guerras que travei, não somente das que venci.
Pois para caminhar sobre a ponte do primeiro grande castelo conquistado, foi necessário levantar e caminhar sobre os escombros de vários próprios que foram destruídos.

Que venham outras grandes batalhas; guerreiro algum irá correr do local onde Deus um dia o consagrou.





'Não se aprende uma lição que não venha acompanhada da dor.
Já que não se pode construir nada sem um sacrifício.

Mas quando se aguenta essa dor e a supera,
as pessoas conseguem um coração forte que não perde para nada...



...sim, um coração como o aço.'



quinta-feira, 22 de julho de 2010

Back to Green




"devemos correr contra as forças da escuridão... todo o mal do mundo, todo o ódio."



Nessas férias tive oportunidade de conviver e refletir sobre extremos. Mas o próprio conceito de extremos já é extremamente delicado, quando tomado por um ser que nasceu, foi criado e teve toda sua existência formada quase que exclusivamente por selvas de concreto, mediações digitais, informações intensamente tendenciosas e valores fortemente transformados.

A verdade é que as duas cenas antagônicas descritas nas imagens refletem o tipo de divergência que experimentei.

De um lado temos o homem escravizado, domado, influenciado e rendido a um estilo de vida, a uma ditadura da informação. Um meio que faz com que ele se perca entre dados, números, notícias, boatos e meias-verdades. É o típico homem infestado pelo vírus da sociedade e do estilo de vida formatado, padrão. Cujo único objetivo é correr atrás de metas e sonhos colocados em sua mente sabe-se lá por quem. Enfim, uma vida repleta de desejos, que são sempre colocados acima das necessidades. Esse homem, portanto, se torna escravo de seu próprio ego, de suas próprias emoções, construindo para si ideais aparentemente genuínos, mas basta uma olhada superficial para o lado, para ver uma multidão de zumbis que sonham e anelam com todas as forças exatamente pelas mesmas coisas. Algo realmente intrigante, quando consideramos ter vindo do ser mais desenvolvido, racional, divergente e contraditório da natureza. Esse é o homem que escravizou a si mesmo, com grilhões que alcançam até mesmo quem os criou.

Por outro lado, conheci a incrível história de Christopher Johnson McCandless. Um jovem norte-americano que resolveu abandonar todo o conforto, diploma, dinheiro e 'sonhos' que tinha na vida para se aproximar um pouco mais de sua essência, se aventurando numa caminhada rumo ao desconhecido, apenas com o rumo de chegar ao Alasca. A história dele acabou dando origem a um livro lançado em 1996, com o título orignal de Into the Wild, por Jon Krakauer, adaptado para os cinemas em 2007 sob a direção de Sean Penn, com o título em português de "Na Natureza Selvagem".

“(…) SEM JAMAIS TER DE VOLTAR A SER ENVENENADO PELA CIVILIZAÇÃO, FOGE E CAMINHA SOZINHO PELA TERRA PARA SE PERDER NA FLORESTA”


Inspirado por escritores como Jack London, Hendy David Thoreau e Leo Tolstoy, esse jovem criou uma certa aversão à sociedade e todo o sistema que havia sido criado e se enraizado profundamente nas pessoas, que não mais pensavam, jamais o questionavam, apenas viviam. Me identifiquei grandemente com a atitude e os pensamentos de Christopher, principalmente na parte de não questionamento de algumas verdades absolutas. Conversando com uma amiga ultimamente fui questionado sobre que coisas eu ensinaria para os meus filhos...
Como muitos sabem sou cristão, frequento uma igreja evangélica, mas não sigo tanto o padrão psicológico da maioria das pessoas que conheço ou convivo. Tenho curiosidade e dificuldade de engolir padrões, principalmente comportamentais, sem alguma explicação, ou razão; ou seja, sou o tipo de pessoa que busca entender o porque de alguma coisa antes de segui-la ou adotar como verdade pra minha vida.
Então o que eu respondi a essa minha amiga foi que eu ensinaria apenas duas coisas a meus filhos: a primeira são os caminhos de Deus; Seus princípios, mandamentos éticos, morais e explicarei paulatinamente a razão de tudo aquilo; o porque de agir assim e assado e não apenas: faça isso porque é o certo, ou porque Deus mandou, ou porque Ele vai te castigar se vc não obedecer.
A segunda é intimamente ligada a essa primeira, que é justamente aprender a pensar e questionar as coisas; sobretudo eles, que viverão numa era altamente intoxicada pelo espetáculo, pelo estilo de vida massificado, por padrões muito restritos de conduta e 'normalidade'.
Sou do partido de que devemos tratar uma pessoa desde sempre como se ela já fosse aquilo que desejamos que ela se torne. Logo, se quero que meus filhos, ou qualquer outra pessoa se torne um ser pensante, inteligente, capaz de compreender e modificar o meio em que vive, eu me recuso a colocar verdades inexplicadas na cabeça deles, uma vez que da mesma forma que eu coloquei dogmas incontestáveis na cabeça deles, voltados pro que EU acredito ser certo, outras pessoas, situações ou experiências podem fazer o mesmo, e claro, nem sempre pendendo para coisas desejáveis (sobretudo nos dias de hoje).

Enfim, o que mais me impressionou na longa jornada desse garoto foi como a simplicidade, a naturalidade e a paz que ele tinha dentro de si, eram facilmente absorvidas por outras pessoas, que já possuiam de certa forma, uma maturidade comportamental e espiritual pra isso.
Digo, alguém que estava num caminho como o dele, limpando de si doses hemeopáticas de veneno social e mental, quando caminha pelas ruas de uma grande metrópole, vai ser visto como um desajustado, um coitado, um perdedor, nessa vida onde vencer é ter sucesso social, financeiro, poder, profundamente imerso nos conceitos da tão glamourosa high-life (objetivo máximo de vida para a esmagadora maioria dos jovens atuais); mas quando encontrava pessoas simples, desapegadas, com o conteúdo lapidado interiormente e não externamente, Christopher parecia trazer à tona o melhor de cada pessoa, se tornando alguém quase que insubstituível para a compreensão de certas coisas. Sendo que o único dom ou talento sendo demonstrado por aquele jovem era a simplicidade, a naturalidade, a essência do homem, a longo tempo abandonada.

Quantas vezes por semana, mês ou ano que nos permitimos pisar descalços numa grama úmida após uma noite de sereno até sentir a terra revirar sob nossos pés, ou encher com vontade nossos pulmões com a primeira brisa da manhã? Quantos aqui tiram que seja, segundos de seu precioso tempo, para contemplar a infinitude das estrelas que nos observam silenciosamente no vazio da noite? Ou mesmo nos colocarmos embaixo de uma cachoeira, e sentir aquela água gelada, pura e cristalina lavando toda nossa carga de stress, inquietação e urbanismo?

São coisas assim de que precisamos, voltar um pouco para a essência, ter o mínimo contato que seja com a vida natural, nos afastando dos animais violentos e egoístas que temos nos tornado, e paradoxalmente ou não, buscar mais contato com a nossa natureza selvagem!








“Tive uma vida feliz, e agradeço ao Senhor.
Adeus e que Deus vos abençoe a todos”.

Christopher McCandless