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segunda-feira, 4 de março de 2013

A compulsão patológica pela auto-projeção



Aqui vai uma breve reflexão que me ocorreu enquanto eu lia o trecho de um livro que faz um apanhado histórico de alguns pontos sobre o comportamento e a evolução social da humanidade.

Nesse capítulo específico, é narrado como se manifestavam alguns comportamentos que hoje são reconhecidamente patológicos, numa época em que suas causas ainda eram desconhecidas.

"A anorexia, que implicava em recusar alimento e que normalmente se manifestava diante da família inteira, na hora das refeições era ainda mais útil. De acordo com a mesma historiadora (Elaine Showalter), dava às moças que sofriam dela "o meio perfeito" de controlar suas famílias; fazendo "os pais ficarem possessos, as mães, chorarem" e tornava-as "o único objeto de preocupação e das conversas". Não foi à toa que a chamaram de "a clássica doença da moda na belle époque".

As pacientes com suficiente discernimento, tais como Florence Nightingale, às vezes acabavam admitindo que queriam atenção e encontravam meios melhores de consegui-la. Algumas acusavam os médicos que tinham feito de tudo para obter uma cura; ainda faziam de seus sintomas o centro de sua vida.


(...)


Algumas mulheres fingiam sintomas, ou seja, punham fezes na boca e vomitavam para simular problemas do sistema digestivo. Outras falavam sem parar. Dessas, a que ficou mais conhecida foi a "Dora" de Freud. Dora, cujo nome real era Ida Bauer, era a filha de uma família de classe média alta. Tinha sido encaminhada por uma variedade de sintomas, incluindo a inabilidade de falar sua língua natal (mas não as outras com as quais tinha familiaridade). Ela gostou tanto de ser um famoso estudo de caso que isso se tornou o centro de sua existência. Desde então, tentou repetir seu triunfo: exibindo novos sintomas e indo de médico em médico numa interminável busca por atenção."
  ¹


                           


Ao ler essa tendência fica impossível não traçar um paralelo com um comportamento amplamente disseminado nos dias de hoje: o sonho de alcançar a fama, o destaque social e o reconhecimento das pessoas.

Lembrando que essa síndrome vai muito além daqueles que sonham em ser atletas famosos, estrelas da música, ou artistas da televisão ou cinema - não que haja nada de errado em ser essas coisas, desde que você tenha uma aptidão e gosto natural para tanto, e não busque tais carreiras por causa da consequência que elas trazem, mas pelo exercício do ofício em si - falo de todos que possuem como estilo de vida, a construção e a exposição da própria figura, ainda que em menores redutos. Estão aí os exemplos dos que buscam fama ao se apresentarem em palcos ou quadras aplaudidos por dezenas de milhares de pessoas, e outros que simulam doenças psíquicas apenas para obter atenção dos pais. Mas será essa busca por reconhecimento e atenção natural do ser humano, ou apenas mais um sintoma de uma doença da alma?

Vivemos a era do rápido - quase instantâneo - tráfego de informações, excesso de meios de comunicação e interação, fazendo com que muitas vezes nos tornemos dependentes dessa dinamica. Não é raro encontrar pessoas que entram em pânico ao ficar sem celular, ou conexão de internet por algumas horas. O desespero de perder contato com os outros só pode ser tão angustiante para aqueles que tem medo de ter contato consigo mesmos. É como diz Arthur Schopenhauer:

"O homem só pode ser si mesmo por completo enquanto estiver sozinho; por conseguinte, quem não ama a solidão, não ama a liberdade; pois o homem só é livre quando está sozinho. Cada qual evitará, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor de seu próprio ser.
Porque na solidão o mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o espírito elevado toda a magnitude de sua grandeza; em suma, cada qual sente aquilo que é. Ademais, quanto mais elevada for a posição que um homem ocupa na hierarquia da natureza, mais solitário será; isso é essencial e inevitável." 


Ainda na temática das interações virtuais, observem que as redes sociais que mais fazem sucesso nos últimos anos são aquelas onde é possível um maior grau de exposição do sujeito, através de fotos, vídeos, opiniões, textos, localidades onde se visita e todo tipo de informação. Acontece que agora podemos não apenas comentar livremente sobre cada aspecto da vida alheia, como também emitir um juízo de valor sobre eles. No Facebook, por exemplo, a possibilidade de hipocrisia e afago do ego alheio é absoluta. Pode-se "curtir" algo, mas não "descurtir", ou protestar, sem se expor através de um comentário direto; coisa que a maioria evita, afinal não pega bem passar por contestador, estraga-prazeres, ou revoltado. Afinal é um pecado mortal criticar a opinião, a imagem e ferir o ego alheio.

E de toda essa facilitação técnica somada à nossa cultura relativista, politicamente correta e flagrantemente hipócrita, surge a prática de "se vender".
É uma espécie de comportamento quase patológico, onde pessoas comuns parecem se comportar como celebridades, dando notícia de tudo o que fazem, comem, gostam, acham, enxergam, vão e pensam. E claro, tudo passa pelo filtro da moda, do luxo e do glamour antes de ser compartilhado. Ainda estou pagando pra ver quem poste foto do misto quente feito na chapa da padaria ou faça check-in no dogão do Seu Zé de Freitas.A pessoa tem que saber "se vender", mostrar a que veio, fazer um bom marketing pessoal - como no brilhante artigo do Luiz Felipe Pondé - afinal nem todos tem obrigação de saber quem você é de verdade. 

A minha pergunta é: e quem disse que todo mundo deve necessariamente te conhecer e saber quem/como você é? E mais: quem disse que a maioria delas se importa com isso?

Bom, talvez a maioria até se importe; mas o que vejo é que não são todas as pessoas que "se vendem", que são muito procuradas e "consumidas" virtualmente. O que vejo é que uma minoria realmente recebem a tão preciosa atenção que procuram ao se expor nas redes sociais. E são justamente aquelas pessoas que já atingiram o que a maioria busca com essa prática: destaque social, uma quantidade maior ou menor de status, fama, grana, e por aí vai. Não é necessário discorrer sobre a miséria moral e espiritual que paira sobre as almas que buscam somente essas coisas, ou mesmo as consideram expoentes de sucesso, desenvolvimento e grandeza de um ser humano.


Essa mentalidade acaba gerando uma distorção enorme, onde as pessoas começam a desvalorizar a mansidão, a humildade, a discrição e começam de uma forma ou de outra a apreciar a arrogância, a prepotência, geralmente tentando camuflar essas baixezas sob pretextos equinos como: "ah, ele é ignorante mas tem um bom coração", "ele é arrogante mas é sincero, fala o que pensa", "ele é grosseiro, prepotente mas tem personalidade, né?".

Assim fica fácil concluir que essa cultura da auto-exposição, seja em maior ou menor grau, denota um profundo nível de vazio interior, de carência por qualquer motivo, de baixo nível intelectual, sabedoria (não confundir com conhecimento técnico ou mesmo sucesso em determinada profissão; uma coisa não tem nada a ver com a outra) e afins.
Em suma, é a celebração da futilidade, da aparência e de desejos igualmente baixos e fúteis, sobre a realidade, a essência, a verdade. Prefere-se omitir uma opinião, censurar uma ideia própria, abandonar uma causa do que correr o risco de ser mal visto ou mal falado pelos outros. Esse é o tipo de covardia moral mais grave, pois coloca-se a própria imagem e a busca pela adulação, acima da própria verdade de si - assunto de extrema seriedade sobre o qual discorri na postagem passada. Assim a corrosão do caráter e a confusão absoluta passa a ser questão de tempo. Até que chega-se ao ponto em que é mais importante saber escolher uma roupa camuflada, o filtro certo e o ângulo apropriado na foto do que efetivamente suar para manter a silhueta nos conformes;  melhor aparentar estar sempre saudável, bem-humorado, feliz e realizado do que efetivamente batalhar para viver isso; mais vale tirar foto de cada segundo em que o sol recua rumo ao horizonte do que contemplar lentamente a beleza do astro-rei desaparecendo ao longe no oceano.

Benvindos à época onde a ciência cria medicações na velocidade da luz mas as doenças psíquicas e espirituais pululam a vários gigabytes por segundo.






                          


¹: Trecho extraído da obra "O Sexo Privilegiado", do historiador Martin Van Creveld - pg.402-403
²: Ouçam/leiam: Dea Pecuniae

5 comentários:

Anônimo disse...

A tooth (plural teeth) is a undersized, calcified, whitish form initiate in the jaws (or mouths) of innumerable vertebrates and used to ease up down food. Some animals, particularly carnivores, also use teeth in behalf of hunting or owing defensive purposes. The roots of teeth are covered by means of gums. Teeth are not made of bone, but to a certain extent of multiple tissues of varying density and hardness.

The unrestricted design of teeth is alike resemble across the vertebrates, although there is sizeable variation in their shape and position. The teeth of mammals have esoteric roots, and this pattern is also found in some fish, and in crocodilians. In most teleost fish, manner, the teeth are partial to to the outer surface of the bone, while in lizards they are fixed devoted to to the inner side of the jaw by a man side. In cartilaginous fish, such as sharks, the teeth are unavailable around rough ligaments to the hoops of cartilage that accumulate the jaw.

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